Esta é a primeira entrevista da coluna que vou escrever a cada quinze dias para vocês, aqui no site Biotec pra Galera. A idéia é trazer as dúvidas mais freqüentes sobre biotecnologia respondidas pelos maiores “feras” no assunto, os pesquisadores dos principais institutos e universidades do País. Tudo isso de um jeito interessante e muito fácil de entender. Na entrevista de hoje, vamos ao começo dessa história toda. Afinal de contas, o que é biotecnologia e onde ela está em nosso dia-a-dia. Quer ver?
Jairo Bouer

ENTREVISTA - Ficha Técnica: Flávio Finardi Filho, Natural de São Paulo, SP - Graduação: Farmácia na USP - Mestrado e Doutorado: Ciência de Alimentos, USP - Cargo atual: Professor Doutor do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP

Biotecnologia: da fabricação do pão à produção de medicamentos

A biotecnologia ganhou muito destaque na mídia nos últimos tempos com a produção dos alimentos transgênicos. Mas você sabia que ela é usada pelo homem há milhares de anos? Na conversa com o Biotec pra Galera, o professor Flávio Finardi Filho conta que, na verdade, a história da biotecnologia se confunde com a própria história da humanidade. O professor Flávio é doutor em Ciência de Alimentos e leciona na Universidade de São Paulo, onde também pesquisa a segurança de alimentos transgênicos.



Biotec pra Galera - O que é biotecnologia e como as pessoas podem perceber seu uso?

Flávio - A biotecnologia é quase tão antiga quanto o homem. É a ciência da obtenção de um alimento ou de um produto graças à ação ou ao trabalho de um organismo vivo. Há vários setores da indústria e da medicina que utilizam esse processo para "fabricar" algum produto para nós: vai desde a preparação do iogurte e da cerveja até a produção de antibióticos. São produtos que já fazem parte do nosso dia-a-dia. Atualmente, tem aumentado a quantidade de produtos e os recursos obtidos por meio de biotecnologia. O que seria do tratamento de doenças como a Aids sem o auxílio da biotecnologia?

Biotec pra Galera - Qual foi o primeiro produto que o homem usou e que teria sido obtido por meio dessa ciência?

Flávio - O pão e o vinho, por exemplo, aparecem em tempos imemoriais, descritos até na Bíblia. Lógico que não se sabia que tipo de processo estava envolvido na produção desses alimentos, mas as leveduras (fungos) já estavam lá, crescendo e ajudando nos processos químicos para obtenção de um novo alimento. Isso já era biotecnologia.

Biotec pra Galera - E o que aconteceu de 10 a 15 anos para cá, quando a gente começa a falar em biotecnologia moderna? Que revolução foi essa?

Flávio - O que se convencionou chamar de biotecnologia moderna é a área que envolve modificações nos organismos. Mas a biotecnologia é muito mais ampla do que apenas esse setor de transformações dos organismos para a produção de um novo produto. Uma série de experiências feitas com DNA (material genético das células e dos organismos) criou o que se chamou de tecnologia do DNA recombinante. É simples: descobriram-se enzimas (substâncias químicas) que agiam sobre o DNA, cortando-o como tesouras muito precisas, nas posições corretas. Depois, perceberam que havia colas que poderiam "grudar" esses fragmentos de DNA. É um processo igual ao famoso corta-e-cola que a gente tem em qualquer programinha de computador. Se você tem um problema qualquer, vai lá, corta, elimina a parte que não é correta na estrutura do DNA e cola o que seria mais saudável, mais produtivo. Esses reparos são feitos normalmente pelas células na natureza. Por que não usar essas técnicas em benefício do homem? Vamos cortar e colar aquilo que a gente quer que seja produzido. O que se tentou nessas novas experiências foi checar se realmente aquele código genético que deveria ser universal funcionava. E funcionou. Uma vez introduzidas novas seqüências numa bactéria, por exemplo, ela passou a produzir proteínas novas, enzimas novas. Plantas foram criadas para fazer o mesmo processo. A primeira planta transformada foi o tabaco.

Biotec pra Galera - Essa primeira experiência com o tabaco foi na década de 70, mas, de uma maneira prática, a gente começou a usar isso a partir da década de 80, 90...

Flávio - Exatamente. Foram necessários vários anos para aperfeiçoar essas técnicas. Quando você faz um cruzamento de duas variedades de uma planta, por exemplo, você usa mais ou menos esse tipo de processo. Você cruza para obter o que tem de bom em uma e o que tem de bom em outra. Mas pode encontrar o que tem de ruim em uma e o que tem de ruim em outra. Isso leva mais tempo do que tentar interferir no sistema e dizer: "o que deve ser copiado é isto". Então você indica para o organismo o que deve ser incorporado. É uma modificação dirigida.

Biotec pra Galera - A gente pode pegar, por exemplo, um DNA humano e colocar numa bactéria para que ela funcione como uma espécie de usina para gente?

Flávio - É isso o que se faz com a insulina. A insulina antes era obtida a partir de um extrato de pâncreas de porco, o que causava muita reação alérgica e uma série de problemas para algumas pessoas. Hoje, a insulina é toda feita a partir de bactérias, e é insulina humana. O DNA que mostrava para as células humanas como produzir insulina foi colocado dentro de uma bactéria, que passou a produzir esse hormônio para a gente. Isso é o mais interessante: você deixou de depender de animais, eliminou fatores causadores de alergias e outros problemas e tem uma produção de um hormônio em uma espécie de fábrica. A mesma coisa vale para a produção da vacina contra a hepatite.

Biotec pra Galera - Quais são as aplicações práticas dessa fase mais moderna da biotecnologia?

Flávio - Além da insulina que a gente já citou, há vários hormônios e vacinas desenvolvidas com esses processos. Existem muitos medicamentos que hoje são usados no tratamento de doenças, produzidos com a participação da biotecnologia. E aí começou a se ver que era possível também direcionar esses produtos para melhorar aspectos da agricultura. Aumentar, por exemplo, a resistência de plantas ao ataque de insetos ou condicionar o desenvolvimento de alimentos à presença de herbicidas (substâncias encarregadas de eliminar outras plantas que podem crescer dentro da lavoura). A partir daí também começaram as investigações para melhorar os nutrientes de alguns alimentos. Novas plantas são usadas como uma espécie de fábrica de nutrientes. Você pode ter, por exemplo, uma fixação maior de ferro em determinadas plantas, ou ter a produção maior e mais diferenciada de vitaminas nas plantas. Estes alimentos poderão ser utilizados em programas de alimentação para a população de baixa renda e distribuídos para pessoas carentes de nutrientes. O arroz dourado, por exemplo, tem mais betacaroteno (pró-vitamina A) e já está liberado na China e na Índia.

Biotec pra Galera - Muitas pessoas têm medo da biotecnologia, medo de para onde a gente está indo, do que a gente está fazendo... As pessoas têm que ter medo da biotecnologia? Ela assusta?

Flávio - Assusta do mesmo jeito que assustaram as vacinas, do mesmo jeito que se viveu outras ondas de produtos novos chegando ao mercado e que criaram polêmica. As vacinas nos anos 50 também trouxeram preocupação. Mais recentemente, na década de 80, se começou a usar adoçante artificial. Assim, criou-se uma polêmica muito grande. Hoje ninguém mais se assusta com isso. Sucessivamente, novas ondas vêm, novas barreiras e novas invencionices, porque a população se assusta quando pensa que um novo produto está fazendo parte da sua comida. Ela não se assusta quando o médico fala que a vida dela depende daquela insulina, daquele produto obtido pela biotecnologia. Mas se assusta ainda com os alimentos. Isso acontece até que se estabeleça a confiança entre os consumidores. E isso leva um tempo.

Biotec pra Galera - Que tipo de trabalho você desenvolve na USP?

Flávio - Minha especialidade é segurança alimentar. Temos uma linha de pesquisa com soja e cana-de-açúcar geneticamente modificadas. Fazemos experiências com animais para testar a segurança dos produtos modificados. Alimentamos ratos com duas rações diferentes: em uma colocamos a soja convencional e, na outra, a soja modificada. Depois de um tempo com essa ração, eles são sacrificados e analisamos cada órgão para ver se tiveram alterações, comparando com os animais alimentados com soja natural. Até agora, as pesquisas têm mostrado que os ratos se desenvolvem normalmente.

Biotec pra Galera - Do ponto de vista científico, você - que trabalha como uma espécie de "xerife" dos novos alimentos -, acha que as pessoas precisam se preocupar com os produtos derivados da biotecnologia?

Flávio - Não, porque ninguém é louco de colocar no mercado um produto que tenha algum risco. As pesquisas que vêm sendo feitas para diminuir o teor de proteínas alergênicas na soja ou no amendoim, por exemplo, contribuem para melhorar a qualidade de vida de quem consome tais produtos. Ataca-se muito esse processo da biotecnologia, dizendo que ela está favorecendo apenas os agricultores. Não é assim. O desenvolvimento do arroz dourado é uma prova disso. É essa questão que a gente tem que mostrar, que não existe risco para as pessoas.

*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.

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