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Biotecnologia na luta contra Aids
A Unaids (órgão das Nações Unidas para Aids) estima que haja cerca de 40 milhões de pessoas vivendo com Aids atualmente. Só no Brasil, desde 1980, foram registrados mais de 360 mil casos da doença. Uma das grandes esperanças para barrar a epidemia é que os cientistas consigam desenvolver uma vacina contra o HIV.

Há várias pesquisas nessa área, e uma delas está sendo feita em São Paulo, sob o comando do professor Esper Kallás, da Unifesp. O Biotec Pra Galera conversou com ele para entender melhor como andam esses estudos.

 

ENTREVISTA - Ficha Técnica: Esper Kallás - Formação: Mestrado e Doutorado em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Cargos atuais: Responsável pela disciplina de Imunologia na pós-graduação da Unifesp e pesquisador do estudo mundial da vacina do HIV.

 

Biotec Pra Galera - Como a biotecnologia está sendo empregada na busca da vacina contra Aids?

Esper Kallás - De diversas maneiras. Ela é aplicada desde o começo da pesquisa sobre o HIV - um dos vírus que mais conhecemos até hoje graças aos avanços dos últimos anos. Ela também está no desenvolvimento de novos produtos candidatos a constituírem uma vacina e na elaboração de testes laboratoriais para avaliação dos pacientes e voluntários vacinados.

Biotec Pra Galera - Qual a maior dificuldade na obtenção dessa vacina?

Esper Kallás - É conhecer qual é o marcador de proteção de uma pessoa eventualmente imune ao vírus.

Biotec Pra Galera - Qual é a base da vacina desenvolvida na Unifesp?

Esper Kallás - Trata-se de um adenovírus do tipo 5 que foi modificado no laboratório para perder sua capacidade de replicação em células e para receber um fragmento do gene gag do HIV-1. (Se você quiser informações adicionais sobre a pesquisa, acesse o site http://www.vacinashiv.unifesp.br/principal.htm)

Biotec Pra Galera - Em que fase se encontra a pesquisa da Unifesp?

Esper Kallás - Estamos testando o produto em ensaio clínico de fase I, isto é, para avaliar sua segurança e sua capacidade de induzir a resposta imunológica contra o vírus em pessoas vacinadas. Até o momento foram incluídos todos os voluntários, que estão em programa de vacinação.

Biotec Pra Galera - Como são feitos os testes em humanos?

Esper Kallás - São feitos em fases de I a IV. A fase I começa quando um novo produto começa a ser testado em seres humanos. A primeira coisa que se quer avaliar é a segurança. Nessa fase, usualmente os participantes são um número limitado de pessoas saudáveis que não tenham risco de ter a doença, pois ainda não se sabe se a vacina é capaz de estimular o sistema de defesa. Os ensaios clínicos para definir qual é o esquema mais apropriado para aplicar acontecem na fase II de desenvolvimento. A maior parte dos ensaios clínicos para testar produtos como vacinas contra HIV estão nessa categoria.

Biotec Pra Galera - E nas fases finais, o que acontece?

Esper Kallás - Os ensaios clínicos fase III vão confirmar se o produto realmente serve. Esses estudos incluem a participação de um grande número de pessoas que estejam em risco de ter a infecção ou a doença. No caso das vacinas contra HIV, em estudos dessa fase são convidadas a participar as pessoas que apresentam risco para adquirir a infecção. Mas, mesmo nessa etapa, a eficácia da vacina não está definida, portanto os participantes devem tomar todas as medidas de prevenção para evitar o contagio com o vírus.

Biotec Pra Galera - Há algum risco de os voluntários se contaminarem com o HIV através da vacina?

Esper Kallás - Não. Esse seria um risco inaceitável. Os produtos testados são constituídos somente com frações do vírus e, portanto, incapazes de induzir infecção.

Biotec Pra Galera - O que é mais provável que se consiga desenvolver antes: a vacina terapêutica (que ajuda no tratamento de pessoas já contaminadas) ou preventiva (que imuniza pessoas ainda não contaminadas)?

Esper Kallás - Os maiores esforços estão direcionados para obtenção de vacina preventiva, mas o que vier primeiro será bem-vindo! A necessidade maior é a vacina eficaz. São milhões de infectados no mundo todo, com a estimativa de cerca de 13 mil novas infecções todos os dias. A maioria dessas pessoas está em países pobres (90%), sem acesso a tratamento e cuidados básicos.

Biotec Pra Galera - Existe alguma pesquisa no mundo que esteja em fase final de testes, prestes a ser liberada?

Esper Kallás - Sim, mas os resultados não são conhecidos e, portanto, não dá para dizer se serão ou não liberadas. Dois produtos já alcançaram fase final e fracassaram. Portanto, é importante lembrar que o melhor é manter as medidas conhecidas de prevenção e não sair fazendo bobagem, contando com uma vacina que sairá "logo".

*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.

 

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