Cirurgia com células-tronco recupera lesões nervosas
Pacientes que sofreram lesões nos nervos estão conseguindo recuperar o movimento da mão mais rapidamente graças a uma nova técnica cirúrgica feita com células-tronco. O responsável pelas operações é o Dr. Jefferson Braga Silva, professor de medicina da PUC-RS.
Até o final de abril, Braga Silva já tinha realizado três cirurgias com esta técnica em pacientes que perderam um segmento do nervo da mão. Sem ele, há interrupção da transmissão de estímulos nervosos para o músculo. Por isso os pacientes perdem o movimento e a sensibilidade.
As células-tronco do próprio paciente são injetadas no local da lesão, recuperando o nervo lesionado. Braga Silva explica mais sobre a técnica nesta conversa com o Biotec Pra Galera.


ENTREVISTA - Ficha Técnica: Jefferson Braga Silva - Formação: Graduação e mestrado em medicina na PUC-RS, doutorado em medicina na Unifesp (SP).
Cargo atual: Professor-titular de cirurgia da PUC-RS.

Biotec Pra Galera - De onde foram tiradas as células-tronco usadas na cirurgia?

Dr. Jefferson Braga Silva - Da medula óssea, que é aquele tecido esponjoso que está dentro do osso e lhe dá uma consistência parecida ao coral de praia. Todo mundo tem célula-tronco na medula óssea, independente de idade, sexo, raça. A tecnologia para tirar as células-tronco da medula óssea é barata e simples de fazer, qualquer laboratório equipado com um mínimo de condições pode fazer essa extração.

Biotec Pra Galera - Como é feita a extração?

Dr. Jefferson Braga Silva - A gente tira uma quantidade grande de sangue, em torno de 70 a 80 ml, e o material é centrifugado no laboratório. Isso é feito numa máquina que gira em torno de 4 mil rotações por minuto e vai separar a parte líquida e sólida do sangue. A sólida é descartada. Na líquida, a gente coloca um reagente e centrifuga de novo por mais 30 minutos. Quando ocorre a segunda separação, já dá para reconhecer as células-tronco. Tira-se o excesso de líquido, passa-se por outra centrifugação e temos a depuração do material. De 70 ml tiramos 3 ou 4 ml de material final.

Biotec Pra Galera - Há alguma região em especial de onde se tiram as células-tronco?

Dr. Jefferson Braga Silva - Como é preciso retirar uma grande quantidade, a gente usa o osso da bacia, onde o fêmur se encaixa, a "cadeira". Teoricamente poderíamos tirar de qualquer osso, mas a gente dá preferência à bacia porque lá tem bastante material.

Biotec Pra Galera - Como as células-tronco "sabem" que precisam se desenvolver como aquele nervo?

Dr. Jefferson Braga Silva - A célula-tronco é como se fosse o "coringa" de um jogo de cartas. Se você colocar a célula-tronco de medula óssea ao lado de um osso, ela é induzida a virar osso. Nas células germinativas, de sangue de cordão umbilical, é necessário induzir com um reagente para que ela se transforme em determinado tipo de tecido. Com as células de medula óssea, é só colocá-las junto ao tecido que ela já é induzida a se transformar. Nas cirurgias que eu tenho feito, coloco dois pedaços de nervo com um espaço no meio e um tubo em volta. Como ele é hermeticamente fechado, a célula só pode se transformar em nervo, a não ser que ela se tranformasse em tubo, mas não tem como...

Biotec Pra Galera - Então ela acaba se transformando no próprio nervo?

Dr. Jefferson Braga Silva - Isso. Essas pesquisas eu tenho feito por causa de um problema comum no Brasil. O que acontece? Você se machuca, vai para o hospital e o nervo não é emendado. O paciente demora muito tempo até chegar a alguém que "refaça" o nervo. Os dois pedaços do nervo acabam se separando. Desde 1995 a gente já colocava o tubo ao redor do nervo, porque ele crescia de novo sozinho. A célula-tronco funciona como um adubo para o nervo, faz o crescimento ficar com melhor qualidade. Para a ponta da mão, isso significa melhor resultado funcional.

Biotec Pra Galera - Essa técnica pode ser usada em qualquer tipo de lesão nervosa ou por enquanto somente nos nervos da mão e do braço?

Dr. Jefferson Braga Silva - Vale para qualquer região. Nossas pesquisas têm sido feitas para nervos fora da medula espinhal e cabeça. Daria para fazer a cirurgia em todo nervo que está fora desse território.

Biotec Pra Galera - Qual a vantagem dessa técnica em relação ao enxerto tradicional?

Dr. Jefferson Braga Silva - A gente está observando uma melhor resposta funcional. Ainda não conseguimos quantificar isso, se é 20%, 30%, 40% ou 50% melhor, porque temos poucos casos. Mas, nos casos que fizemos, percebemos que o nervo cresce mais rápido e com melhor qualidade.

Biotec Pra Galera - Como está sendo a recuperação dos pacientes?

Dr. Jefferson Braga Silva - Eles estão indo muito bem. A recuperação de sensibilidade está com mais qualidade, o paciente reconhece mais objetos, temperatura, etc.

*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.

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