Cordão umbilical também fornece células-tronco
As pesquisas com células-tronco têm comprovado que elas representam uma possibilidade de cura para pacientes com doenças genéticas (como certos tipos de anemia, leucemia, diabetes, Parkinson, entre outras). Outros beneficiados pelos tratamentos com células-tronco seriam os pacientes que ficaram tetraplégicos após sofrerem lesões na coluna.
Além das células obtidas em embriões e extraídas da medula óssea, é possível coletar células-tronco no sangue do cordão umbilical, logo após o nascimento do bebê. Normalmente, esse material seria jogado no lixo. Mas ele pode ser uma esperança para milhares de pacientes. Isso é o que conta o Dr. Elíseo Joji Sekyia nesta entrevista para o Biotec Pra Galera.


ENTREVISTA - Ficha Técnica: Elíseo Joji Sekyia - Formação: Graduação em Medicina pela Unesp, mestrado pela USP.
Cargos atuais: Hemoterapeuta do Hemocentro São Lucas, membro da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia e da Sociedade Internacional de Transfusão de Sangue.

Biotec Pra Galera - Como são coletadas as células-tronco do cordão umbilical?

Dr. Elíseo Sekyia - Logo após o parto, o bebê está ligado à placenta da mãe pelo cordão umbilical. Nessa estrutura (placenta e cordão umbilical) há uma grande quantidade de células-tronco. Num parto sem a coleta de sangue de cordão, o bebê é separado da mãe e a placenta é jogada no lixo. Como hoje sabemos que dá para utilizar essas células-tronco, podemos programar a coleta do sangue de cordão. O processo é bem simples e indolor. Logo após o nascimento do bebê, o cordão umbilical é cortado para a liberação da criança e limpo assepticamente. Em seguida, insere-se uma agulha na veia da placenta, que pode ou não estar conectada à mãe. Aí se faz a retirada do sangue utilizando-se um kit de bolsas plásticas específicas para essa atividade, num processo que leva de 5 a 8 minutos. A partir daí, a placenta já pode ser descartada.

Biotec Pra Galera - E o que acontece com esse sangue após a coleta?

Dr. Elíseo Sekyia - Ele é processado para separar as células-tronco e é congelado. A atividade celular praticamente cessa a uma temperatura inferior a -196ºC em nitrogênio líquido. Esse conceito é a base dos processos de criopreservação, que nos permitiu desenvolver a tecnologia de congelamento e preservação de sangue de cordão umbilical por longos períodos de tempo. Hoje, conseguimos seguramente preservar o material por pelo menos 20 anos, com perspectiva de até mais tempo. As amostras mais antigas que existem têm hoje entre 15 e 20 anos, e ainda são viáveis.

Biotec Pra Galera - Existe chance de rejeição num transplante de células-tronco de cordão umbilical?

Dr. Elíseo Sekyia - Sim. Só para a gente comparar: a célula-tronco hematopoética (que consegue transformar-se em diversas outras células de tecidos e órgãos), presente na medula óssea do organismo adulto, apresenta um potencial importante de rejeição. Essas células são usadas em transplantes de medula óssea para o tratamento de doenças relacionadas ao sangue, como as leucemias e os linfomas. As chances de um paciente com leucemia encontrar um doador compatível na população em geral chega a ser de uma em 1 milhão. Ou seja, temos que testar 1 milhão de pessoas para achar uma compatível. Quando consideramos a estatística entre parentes de primeiro grau a chance é bem maior, chega a ser de um para 30. Se considerarmos o sangue de cordão umbilical, a chance de compatibilidade é bem maior, porque ele não tem o mesmo potencial antigênico de uma célula adulta. Hoje existe um programa do Governo Federal tentando criar bancos de sangue de cordão umbilical universal para tentar diminuir as filas de transplante de medula óssea. Para alguns pacientes, a única chance de sobrevivência é o transplante, e as filas existem porque não se encontram doadores compatíveis.

Biotec Pra Galera - Quem pode doar sangue de cordão umbilical?

Dr. Elíseo Sekyia - Todas as gestantes passam por uma avaliação prévia para se analisar o risco da gestação. Se houver risco, como eclampsia (pressão alta provocada pela gravidez), parto de urgência ou algum risco para a mãe, nós desaconselhamos a coleta. Mas, de modo geral, todas as gestantes podem se candidatar à doação.

Biotec Pra Galera - Já são feitos transplantes com células-tronco de cordão umbilical sem ser em caráter experimental?

Dr. Elíseo Sekyia - Sim, já são feitos visando o tratamento de doenças da medula óssea. Um dos primeiros e mais famosos transplantes de células-tronco de cordão umbilical ocorreu na década de 1980. A Dra. Eliane Gluckman fez o transplante entre irmãos para tratar um tipo de anemia chamado anemia de Fanconi. Uma criança nasceu com essa doença, com uma perspectiva de vida mínima. Quando nasceu a irmã desse paciente, colheram-se as células-tronco do cordão umbilical e fez-se o transplante. Hoje o paciente tem quase 30 anos e participa de algumas palestras, sendo a prova viva de que as células-tronco de cordão umbilical servem para curar doenças.

Se você quiser saber mais sobre o trabalho do Dr. Elíseo Joji Sekyia, visite o site www.hemomed-cordcell.com.br.

*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.

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