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Bate-Papo

Brasil inclui rotavírus no calendário de vacinação
Desde março de 2006 a vacina contra rotavírus foi incluída no calendário básico de imunização adotado pelo Ministério da Saúde. A infecção é uma das principais responsáveis pelos casos de diarréia entre crianças. Parte do desenvolvimento da vacina foi feita aqui no Brasil, no Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA). O Biotec Pra Galera conversou com o Dr. Alexandre Linhares, responsável pelos testes.

 

ENTREVISTA - Ficha Técnica: Alexandre Linhares - Formação: Graduação em medicina na Universidade Federal do Pará e doutorado na Fundação Oswaldo Cruz.
Cargo atual: Chefe da seção de virologia do Instituto Evandro Chagas.

 

Biotec Pra Galera - O rotavírus, se não for tratado, pode levar à morte?

Dr. Alexandre Linhares - Sim. Quando o rotavírus infecta uma criança, ela desenvolve a doença que se caracteriza por vômitos, febre e diarréia aquosa, com várias evacuações por dia. Como complicação pode acontecer a desidratação que, se não for corrigida com soro, pode levar ao óbito em pouco tempo. A desidratação pode acontecer em 24 horas ou até menos. Hoje mais de 600 mil crianças morrem de diarréia causada por rotavírus por ano no mundo, é quase uma criança por minuto.

Biotec Pra Galera - Isso acontece com adultos também?

Dr. Alexandre Linhares - Não, quando o rotavírus infecta o adulto geralmente causa uma gastroenterite leve. Às vezes não causa nenhum sintoma.

Biotec Pra Galera - Por isso a vacina é mais indicada para crianças?

Dr. Alexandre Linhares - Normalmente, toda criança até os 5 anos de idade tem contato com o rotavírus. A faixa etária em que acontecem os casos mais graves, que podem levar à morte, é entre os 6 meses e 2 anos. Por isso, a criança tem de estar protegida antes disso e a recomendação é de que ela receba a vacinação nos seus 6 primeiros meses de vida. No caso específico da vacina que foi licenciada no Brasil, a primeira dose é dada via oral aos 2 meses e aos 4 meses é dada a segunda dose, também via oral.

Biotec Pra Galera - Quanto tempo durou a pesquisa para o desenvolvimento da vacina?

Dr. Alexandre Linhares - As fases definitivas, chamadas fases 2 e 3, quando há um grande número de crianças envolvidas nos testes, começou em 2001 na América Latina. Os primeiros países envolvidos foram México, Venezuela e Brasil - no caso do Brasil, o estudo foi feito no Pará, no Instituto Evandro Chagas. O estudo de fase 2 foi até 2003 e tinha os objetivos de mostrar que era uma vacina eficaz, que protege, que induz a produção de anticorpos (as células de defesa) e também precisávamos caracterizar a melhor dose da vacina, além de estudar as reações adversas. Os resultados foram altamente satisfatórios. Aí veio a fase 3, que tem o objetivo de demonstrar a segurança da vacina. Na fase 2 participaram 2.155 crianças. Na fase 3 participaram 11 países da América Latina, mais a Finlândia, totalizando mais de 63 mil crianças. No Brasil, foram 3.218 crianças. Esse estudo demonstrou claramente que se trata de uma vacina segura, ou seja, ela não está associada a efeitos colaterais graves. A eficácia da vacina, que havia sido demonstrada na fase anterior, foi confirmada. A eficácia é de 85% ou mais de proteção contra as formas graves de gastroenterite.

Biotec Pra Galera - Qual é a base da vacina?

Dr. Alexandre Linhares - A vacina é feita com um rotavírus de origem humana atenuado (ou seja, enfraquecido). Ele é atenuado através de passagens em linhagens celulares e também é submetido a um processo de clonagem e purificação. O vírus fica enfraquecido, portanto ele não causa a doença, mas ele não perde sua propriedade biológica de induzir a produção de anticorpos (e, conseqüentemente, a proteção do organismo contra a doença). O vírus usado é do tipo 1, sendo que são pelo menos 5 tipos de rotavírus importantes do ponto de vista epidemiológico. O tipo 1 é o mais comum. A vacina, apesar de ser feita com apenas um tipo, protege também contra os outros tipos do rotavírus.

Biotec Pra Galera - O rotavírus é tão mutante como o vírus da gripe?

Dr. Alexandre Linhares - Não. O rotavírus é um vírus muito estável geneticamente. Diferentemente da gripe, a vacina do rotavírus tende a ser duradora.

 

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