USP pesquisa bovinos clonados
Se você acha que clonagem animal é coisa só de centros de pesquisa no exterior, está enganado! A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo já conseguiu clonar dois bovinos. Em 2001 nasceu o bezerro Marcolino, produzido a partir de células diferenciadas jovens. Dois anos depois, nasceu Bela, criada a partir do material genético de células de um animal adulto.
Os dois animais continuam vivos, e agora os pesquisadores, liderados pelo professor José Antonio Visintin, querem checar se a idade dos clones corresponde à sua idade cronológica desde o nascimento ou se eles envelheceram, como os doadores das células usadas na clonagem.
O Biotec Pra Galera conversou com o professor Visintin para entender melhor o processo de clonagem bovina.
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ENTREVISTA - Ficha Técnica: José Antonio Visintin - Formação: Livre-docência em reprodução animal na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Cargo atual: Professor e pesquisador da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. |
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Biotec Pra Galera - Quantos animais já foram clonados na USP?
Visintin - Já clonamos dois. A clonagem pode ser por célula embrionária, célula diferenciada jovem ou célula diferenciada adulta. Nós temos um animal clonado de célula diferenciada jovem, que é o Marcolino, e um de célula diferenciada adulta, que é a Bela. Os dois estão vivos: o Marcolino tem 4 anos e a Bela tem 2 anos.
Biotec Pra Galera - Já foram feitos testes para saber qual a idade "real" dos animais?
Visintin - Já deveríamos ter feito, mas tivemos problemas com os testes. O que vamos fazer é comparar os telômeros dos animais, que são uma parte dos cromossomos que encurtam conforme o indivíduo vai envelhecendo. Existe um processo chamado atividade telomeral, que recupera o telômero. Quando o animal vai ficando mais velho, ele perde a capacidade da enzima responsável em recuperar o telômero e, consequentemente, ele fica mais curto nos animais mais velhos. Com o teste conseguimos ter uma idéia se o animal está recuperando o telômero ou não. Se ele não recupera, significa que o clone de animal velho nasce "velho", mas eu tenho minhas dúvidas sobre isso, porque os dois clones estão normais. A Bela já está começando a ciclar (ter ciclos para reprodução) e estamos colhendo sêmen do Marcolino.
Biotec Pra Galera - Os dois já se reproduziram?
Visintin - Ainda não, estamos discutindo se vamos cruzar um com o outro, para ver no que dá o filhote de clone com clone, mas ainda não sabemos o que vamos fazer.
Biotec Pra Galera - Como é o processo básico de clonagem dos animais?
Visintin - Pegamos um óvulo e tiramos o seu núcleo. Nós deixamos o citoplasma dessa célula, mas ela fica sem material genético. É como se tirássemos a gema de um ovo. Depois fazemos a cultura de células de um animal que interessa para fazer a clonagem. Pegamos uma célula dessa cultura e inserimos dentro do óvulo enucleado (sem núcleo). Aí damos um choque elétrico nesse material, para que eles possam se fundir. Teoricamente, depois disso, o óvulo começa a se dividir e o embrião começa a se desenvolver. Mas grande parte do material não se desenvolve. Essa "reprogramação" celular é complicada, ninguém sabe ao certo como isso funciona, as coisas ainda se dão ao acaso.
Biotec Pra Galera - E quando o embrião se desenvolve?
Visintin - Aí colocamos na estufa, onde fica de 7 a 9 dias. Quando ele chega ao estágio de blastocisto, que já é um embrião desenvolvido, ou seja, em fase adequada para ser implantado no útero, transferimos para a vaca, as chamadas "vaca-de-aluguel", que não são as mesmas que doam o óvulo nem o material genético. O óvulo, geralmente pegamos de matadouro, de vacas abatidas.
Biotec Pra Galera - Qual seria a vantagem de um animal clonado em relação a um animal comum?
Visintin - A vantagem é manter um material genético de alto valor e disseminar isso mais facilmente. Por exemplo: um criador que queira trocar a população de animais. Em vez de usar animais "ruins", ele clona os animais de alta qualidade, seja reprodutiva, de carne ou de leite, e tentar disseminar esse material.
Biotec Pra Galera - E em relação à medicina veterinária, no que a clonagem pode ajudar?
Visintin - Isso funciona na área de transgenia. Vamos falar da febre aftosa, que está na moda. Os animais são sensíveis ao vírus que causa a doença, então pode-se tentar trocar, inserir, cortar ou modificar algum gene que pudesse tornar os animais resistentes à doença. Como se faz com plantas, que são modificadas para serem mais resistentes a pragas, por exemplo. É o mesmo sistema: modifica-se o indivíduo geneticamente.
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