Fungo que causa infecção em pacientes debilitados é mapeado
O Aspergillus fumigatus é um fungo usualmente inofensivo, que se espalha pelo mundo através de esporos. Acontece que, em pacientes que estejam com o sistema imunológico debilitado, ele é capaz de causar uma infecção fatal. O fumigatus é um dos principais causadores de mortes em pacientes com leucemia ou que passaram por transplante de medula óssea. O combate ao fungo, porém, poderá ser auxiliado pelo seu mapa genético, completado recentemente por um consórcio internacional liderado pela Universidade de Manchester (Reino Unido). O geneticista Gustavo H. Goldman, da USP-Ribeirão Preto, participou da pesquisa e explica para o Biotec Pra Galera como o fumigatus funciona e como foi o seu seqüenciamento genético.
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ENTREVISTA - Ficha Técnica: Gustavo H. Goldman - Formação: Graduação em Biologia na UFRJ, mestrado em microbiologia na Esalq-USP, doutorado em biologia molecular na Rijksuniversiteit te Gent, Bélgica, pós-doutorado em biologia celular na Univesity Of Medicine And Dentistry Of New Jersey, Estados Unidos, e livre-docência na USP. Cargo atual: Professor titular do Departamento de Ciências Farmacêuticas da USP-Ribeirão Preto. |
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Biotec Pra Galera - Quanto tempo levou o seqüenciamento do Aspergillus fumigatus?
Gustavo Goldman - O seqüenciamento do genoma propriamente dito foi relativamente rápido, levou menos de 12 meses. O projeto levou, no total, cerca de 24 meses, principalmente por causa de um processo de anotação automática e da supervisão dessa anotação. Ou seja, por causa da etapa de identificação das regiões responsáveis pela codificação das mensagens do gene, suas possíveis funções, toda a comparação e discussão dos resultados. A parte mais difícil é a extração da informação, é colocar uns 40 pesquisadores debruçados em cima dos dados e tirar o conhecimento deles. O dado está lá acenando para você, mas você tem que entender o que ele quer dizer. Isso é o que leva mais tempo. O seqüenciamento foi feito por três centros de pesquisa, um nos Estados Unidos, outro na Inglaterra e outro no Japão.
Biotec Pra Galera - Então você foi o único brasileiro a participar do projeto?
Gustavo Goldman - Sim. Apesar de o Brasil não ter tido participação no financiamento do projeto, eu colaborei com meu conhecimento. Tenho trabalhado com fungos praticamente minha vida profissional inteira. Tenho muitas conexões profissionais no exterior, e me convidaram para participar do projeto. E uma coisa precisa ser dita: o reconhecimento de todos os pesquisadores brasileiros que trabalham na área de genômica certamente se deve à Fapesp. A minha visibilidade como especialista em fungo que trabalha em genômica se deu porque sempre participei de todos os projetos que a Fapesp estabeleceu de seqüenciamento de genomas. Acho que um dos objetivos da Fapesp, que era tornar visível a ciência brasileira e promover um salto qualitativo, foi atingido. Tanto que o Brasil foi o primeiro país, depois dos Estados Unidos, a publicar um genoma.
Biotec Pra Galera - Qual a importância do fumigatus?
Gustavo Goldman - O fumigatus é um patógeno comum, ele é disseminado pelo mundo através do ar na forma de esporos. Embora ele seja usualmente inofensivo, a espécie foi identificada como causa de uma infecção em 1848. Atualmente, ela é a principal causa de morte em pacientes vulneráveis, como os que têm leucemia, fizeram transplante de medula óssea ou ainda os que têm Aids. Se o paciente estiver com algum comprometimento imunológico, pode ter certeza que, se pegar uma infecção com fumigatus e ela se disseminar pelo organismo, a chance de morte é superior a 50%. O fungo também causa doenças em pessoas imunocompetentes (pessoas saudáveis), mas elas não são suficientes para matar, apenas causam alergia e asma, por exemplo.
Biotec Pra Galera - O fungo é mais comum em alguma região?
Gustavo Goldman - Não. Ele está presente em diversas regiões do planeta, apesar de preferir temperaturas mais altas.
Biotec Pra Galera - Como o seqüenciamento do fumigatus pode ajudar no tratamento da infecção que ele causa?
Gustavo Goldman - O seqüenciamento significa ter a potencialidade para compreender como funciona um organismo. Se você tem o genoma de um organismo, você sabe quais genes estão presentes, quais suas proteínas, quais delas representam fatores importantes para a penetração do fungo e quais podem corresponder a fatores importantes na imunologia. Se você tem a chance de trabalhar com o mapa genético na mão, várias possibilidades experimentais se abrem. Isso é uma revolução, porque até uns 15 anos atrás, para conseguir um gene, você tinha que cloná-lo, ou seja, procurar por ele, localizá-lo e isolá-lo. Hoje você consegue ter a seqüencia desse gene guardada num computador. Assim você consegue saber se ele está ou não presente num determinado organismo, você consegue olhar e ver como o genoma inteiro se expressa. Se você descobre genes que são essenciais para o funcionamento do fungo, que são únicos dele (não existem no organismo humano, por exemplo) e que são importantes para a infecção e se você consegue de alguma forma inibi-los ou inibir a ação das proteínas codificadas por esse gene, você tem um conceito novo de como combater a doença. O genoma abre essa possibilidade. Segundo: você tem a oportunidade de encontrar marcadores que podem ser importantes para o diagnóstico. Imagine uma pessoa imunodebilitada. Se ela pega uma infecção fúngica, até você descobrir o que ela tem para poder dar o medicamento apropriado, a pessoa já morreu. É muito rápido, em uma semana o paciente pode morrer da infecção.
Biotec Pra Galera - O seqüenciamento do fumigatus auxilia o mapeamento de outras espécies?
Gustavo Goldman - Com certeza. O que estamos fazendo agora é seqüenciar outra linhagem do fumigatus. Só pela comparação das duas linhagens já temos uma porção de informações sobre genes que possivelmente podem variar em diferentes cepas e causam problemas de variação em virulência*. Estamos também trabalhando com outras espécies que são muito próximas em termos evolutivos do fumigatus. Se você tem uma espécie do gênero seqüenciada, isso pode ajudar muito a entender como o gênero evoluiu, por exemplo. Aprende-se muito sobre outras espécies correlacionadas por meio de um genoma.
* Este termo é usado para quantificar a potência da produção de doença pôr um microrganismo patogênico particular.
Biotec Pra Galera - Qual o próximo passo da pesquisa?
Gustavo Goldman - A gente tem trabalhado rotineiramente com a determinação de fatores de virulência. Estamos preocupados com a relação entre um nutriente (o cálcio) e a sobrevivência do fumigatus dentro do organismo humano. O nosso organismo, ao contrário do que muita gente pensa, é um meio de cultura bastante pobre para a sobrevivência dessas espécies. Imagina que você está sentando numa mesa para comer e toda hora tem alguém batendo em você! É mais ou menos essa a situação do fungo quando o sistema imunológico do paciente está ativo, então ele não consegue comer. No caso do sistema imunológico deficiente o fungo consegue comer. O que estamos tentando entender é como ele sobrevive e se dissemina num organismo saudável. Para isso estamos estudando o metabolismo do cálcio. Além disso, estamos muito envolvidos com pesquisas de genoma, principalmente em parcerias com a TIGR (The Institute for Genome Research, dos Estados Unidos).
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