Teste poderá detectar alterações genéticas do feto
Se você acha que, na gravidez, só com ultra-som é possível determinar o sexo de um bebê, está enganado! Um teste desenvolvido pelo Banco de Sangue do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, é capaz de acusar o sexo do bebê a partir de amostra de sangue da mãe. A sexagem fetal é feita a partir da detecção de fragmentos de DNA do bebê no plasma materno. Espera-se que, com o aprimoramento da técnica, o teste também possa diagnosticar doenças do feto com base genética. Quem explica como é feita a detecção desse DNA fetal no sangue da mãe é o biológo José Eduardo Levi, responsável pelo desenvolvimento do teste.
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ENTREVISTA - Ficha Técnica: José Eduardo Levi - Formação: Graduação em Ciências Biológicas, mestrado em Bioquímica e Biologia Molecular e doutorado em Microbiologia na USP. Cargo atual: Responsável pelo Laboratório de Biologia Molecular do Banco de Sangue do Hospital Sírio-Libanês e pesquisador do Laboratório de Virologia do Instituto de Medicina Tropical da USP. |
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Biotec Pra Galera - Como é feita a sexagem fetal pelo sangue?
José Eduardo Levi - O teste de sexagem fetal é um teste novo, baseado numa descoberta feita em 1997 por um cientista chinês que vivia na Inglaterra, chamado Dennis Lo. Ele descobriu que, no sangue da mulher grávida, é possível encontrar DNA do feto. Algumas células do feto passam para o sangue da mãe durante a gestação. É uma quantidade minúscula, e isso já era conhecido pela ciência. Só que é uma quantidade tão pequena e é tão difícil separar a célula do feto da célula da mãe que isso não tinha nenhuma utilidade prática. O que o Dennis Lo descobriu foi que há DNA do feto livre no sangue, sem estar dentro de células. Por algum motivo, ninguém sabe qual, esse DNA livre do feto se concentra no plasma da mãe, numa quantidade em que é possível ser analisado com técnicas de biologia molecular.
Biotec Pra Galera - Como ele conseguiu mostrar isso?
José Eduardo Levi - Ele tirou uma amostra de sangue de uma mãe que estava grávida de um menino e, por um teste de biologia molecular que se chama PCR (Reação em Cadeia de Polimerase), ele conseguiu demonstrar que tinha seqüências do DNA do cromossomo Y (o cromossomo que determina que a pessoa será do sexo masculino) no sangue desta mulher. Mais do que isso, ele viu que no plasma da mãe há uma proporção maior de DNA fetal do que no resto do sangue.
Biotec Pra Galera - Dá para fazer a separação entre o DNA do feto e da mãe no plasma?
José Eduardo Levi - Não dá para saber o que é da mãe e o que é do filho. A única coisa que se pode distinguir é alguma característica genética que a mãe com certeza não tem. A mãe nunca vai ser um homem: se você encontrar seqüências do cromossomo Y no plasma dela, deduz-se que é do feto.
Biotec Pra Galera - Como é feita a separação desse DNA livre?
José Eduardo Levi - Você primeiro tira o sangue e centrifuga-o. Daí se separa o plasma, que é a parte amarela do sangue. No plasma, além de outras coisas, está o DNA livre total. Não tem como separá-lo (o que é da mãe e o que é do feto), mas tem como analisá-lo. O que a técnica de PCR necessita é saber o que exatamente você está investigando. Essa é uma grande diferença do teste de cariótipo, em que todo o conjunto de cromossomos do feto é analisado. Qualquer tipo de anomalia genética é detectada por essa análise, porque você está vendo tudo. Com o PCR, não. Se a criança tiver algum tipo de anomalia genética, o teste de sexagem pelo PCR não detecta, porque a princípio eu não fiz a pergunta para essa anomalia. A desvantagem do cariótipo é que ele é um teste invasivo. Para dar certo, você tem que ter certeza de que está usando células do bebê. E só dá para pegar essa células no líquido amniótico ou pela biópsia da vilosidade coriônica (parte da placenta). Os dois métodos são invasivos e apresentam um risco de 1% a 2% de perda do feto. Não é um risco desprezível. O método só deve ser usado se o risco da doença for maior do que o risco da perda.
Biotec Pra Galera - Com quantas semanas de gestação é possível saber o resultado?
José Eduardo Levi - Antes de colocarmos esse teste no mercado fizemos seis anos de pesquisa. Na fase final, optamos por fazer um estudo controlado em que queríamos ver qual o índice de acerto do teste. A conclusão disso foi: quando o resultado é de menino, ele tem acerto superior a 99,99%, praticamente 100%. Quando falamos que é menina, se a mãe tem menos de oito semanas de gestação, ele ainda não é muito certo. Portanto, para o resultado de meninas, o acerto fica próximo aos 100% de acerto após a 8ª semana de gestação. No ultra-som, por exemplo, o resultado só é seguro na 17ª, 18ª semana.
Biotec Pra Galera - Alguma coisa pode interferir no resultado?
José Eduardo Levi - Sim. Se a mãe tomou transfusão de sangue, por exemplo, pode haver segmentos do Y no sangue dela que não sejam do bebê, mas do doador. Outro caso comum é a reprodução assistida, em que são implantados vários embriões. Se um deles regredir, ele libera muito DNA na corrente sanguínea da mãe. A mulher pode fazer o teste e dar menino, mas esse Y ser do embrião que não se desenvolveu.
Biotec Pra Galera - O teste ainda não consegue detectar quanto do DNA fetal há no plasma da mãe?
José Eduardo Levi - Não, porque ainda é um teste qualitativo, e não quantitativo. Mas o que se quer fazer é justamente transformar esse teste em quantitativo. Ainda não há um padrão para se saber qual é a quantidade normal de DNA fetal na corrente sangüínea da mãe, nem a quantidade em cada fase da gestação. Isso só será descoberto com o estudo de muitas grávidas.
Biotec Pra Galera - Qual seria a aplicação do teste quantitativo?
José Eduardo Levi - O DNA fetal livre pode ser marcador de várias coisas. Em geral, ele é marcador de sofrimento placentário. Em caso de eclâmpsia ou qualquer problema com a placenta, há um aumento do DNA fetal livre. O aumento súbito é um indicativo de que alguma coisa está errada com a placenta. Por isso existe um interesse em se quantificar. Outro interesse é, por exemplo, para fazer a detecção precoce da síndrome de Down. A causa da síndrome de Down é a trissomia do cromossomo 21 (normalmente as pessoas têm um par de cada cromossomo). Para se detectar a doença, você precisaria encontrar cinco cromossomos 21 no plasma da mãe, dois dela e três do bebê. Isso serviria para as outras doenças causadas por trissomias.
Biotec Pra Galera - O teste é capaz de detectar o fator Rh do bebê e prevenir casos de eritroblastose fetal?
José Eduardo Levi - Com certeza. O Rh é a aplicação médica mais evidente dessa tecnologia. Já está implantado na Inglaterra, onde o teste é usado como rotina desde 2001. Nós estamos desenvolvendo nosso teste e logo devemos ter disponível aqui no hospital. A situação é perigosa quando a mãe é Rh negativo e o bebê, Rh positivo. Se for detectado isso, a mãe deve tomar uma vacina para não produzir anticorpos contra o Rh positivo do filho. Se não for feita a prevenção, a mãe pode produzir esses anticorpos, que acabam passando para o sangue do bebê e atacam suas hemácias, causando anemia. Em casos muito extremos, é necessário fazer uma transfusão no bebê e trocar todo o sangue dele.
Biotec Pra Galera - Que outras doenças genéticas o teste poderia detectar?
José Eduardo Levi - Em alguns lugares da Europa, o teste de sexagem já é usado com indicação médica para mapear doenças ligadas ao sexo, que são doenças passadas pela linhagem materna e quando o bebê é homem - é o caso da hemofilia, por exemplo. Outra linha que está sendo desenvolvida é para detectar doenças genéticas de base conhecida. Por exemplo: existe uma doença chamada acondroplasia, que é o encurtamento dos membros, que causa o nanismo. Como a doença é recessiva, a mãe e o pai podem não ser anões, mas passam o gene para o bebê. Com o teste dá para detectar se o feto será afetado. Existe também uma doença chamada hiperplasia adrenal congênita, em que a criança produz hormônios masculinizantes - mesmo sendo uma menina, ela vai ter uma masculinização da genitália. Isso é tratado com corticóides na gravidez, que gera uma reversão do quadro, mas tem vários efeitos colaterais. Se há uma suspeita dessa doença e é feita a sexagem do bebê e o feto for menino, você sabe que a genitália sugestiva de menino é de um menino mesmo, e aí não se administra o corticóide à mãe. Se for uma menina, aí é usado o corticóide.
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