Centro em São Carlos leva biotecnologia às escolas
Você já ouviu falar no Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural? Ele é uma iniciativa de pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP), do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron em Campinas e da Univesidade Federal de São Carlos. O CBME funciona com base em um tripé: pesquisa (em que cientistas desenvolvem projetos com abordagem molecular), inovação (o elo entre a pesquisa e o setor produtivo, como as indústrias de biotecnologia) e difusão (levar o conhecimento de biotecnologia e biologia molecular estrutural para a sociedade).
Este último setor é responsável por produzir, entre outras coisas, materiais didáticos muito bacanas para que os professores possam ensinar ciência de uma forma mais lúdica para seus alunos. Ficou curioso? Então dá uma olhada, por exemplo, no Baralho de Nucleotídeos na página http://cbme.if.sc.usp.br/difusao/tabelaprod2.html.
O Biotec Pra Galera conversou com a Professora Leila Beltramini, coordenadora de Difusão do CBME, para entender melhor este trabalho.


ENTREVISTA - Ficha Técnica: Leila Maria Beltramini - Formação: Graduada em Ciências Biológicas Modalidade Médica na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Barão de Mauá de Ribeirão Preto, Mestre e Doutora em Bioquímica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP).
Cargo atual: Coordenadora do grupo de Biofísica Molecular e Espectroscopia do Depto. de Física e Informática do IFSC/USP e Coordenadora de Difusão do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural.

Biotec Pra Galera - Quais as principais atividades do setor de difusão do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural (CBME)?

Leila Beltramini - Podemos dizer que o setor de difusão do CBME está apoiado em três vertentes:
1) desenvolvimento e produção de recursos didáticos - destinados ao ensino da biologia molecular estrutural e biotecnologia para todos os níveis de ensino;
2) avaliação dos recursos didáticos e disseminação dos mesmos - voltando a avaliação para o público-alvo que se pretende atingir de imediato, em seguida aplicando-o em níveis diferentes de ensino. Esta é uma fase importante no processo, pois envolve pesquisa científica em educação. Ocorre a aliança entre o desenvolvimento e produção dos materiais aos princípios pedagógicos e métodos de ensino a serem utilizados nos níveis de ensino a serem atingidos.
3) Participação da equipe (que inclui alguns pesquisadores) em eventos científicos e educacionais - tem como objetivo levar aos estudantes, professores (de todos os níveis) e comunidade os projetos de pesquisa que estão sendo desenvolvidos junto ao CBME, atualizá-los quanto ao que está ocorrendo no âmbito da ciência mundial sobre o assunto e expor os pesquisadores que participam do Centro ao contato com a comunidade.

Biotec Pra Galera - Até muito pouco tempo atrás, a biotecnologia era uma área restrita aos estudos acadêmicos, de universidade. Já podemos dizer que ela está incorporada nos estudos do ensino médio?

Leila Beltramini - Não cremos que esteja incorporada aos estudos no ensino médio ainda. Os livros didáticos tentam mostrar relações entre o cotidiano e a biotecnologia, entretanto, na maioria das vezes, o professor por diferentes razões (que vai da insegurança devido à falta de conhecimentos sobre o assunto até a falta de tempo em sala de aula) não dá destaque ao assunto, não utilizando o fato como motivador da aula para despertar o interesse do aluno. Assim, é imprescindível a relação constante dos cientistas com professores, que atuam em diferentes níveis de ensino, incluindo o universitário, pois a grande maioria do ensino universitário privado no Brasil está nas mãos de colegas que não fazem ciências, somente ministram aulas.

Biotec Pra Galera - A senhora acha que as pessoas ainda têm preconceito em relação a alguns temas de biotecnologia (como pesquisas com célula-tronco e transgênicos) por falta de conhecimento?

Leila Beltramini - Sem dúvida, nossa experiência nesses últimos 5 anos (em educação e difusão de ciências) mostra este aspecto claramente. É muito gratificante depois de ministrarmos palestras, cursos e aulas ver os estudantes, professores e público leigo vir conversar conosco e dizer que eram contra o tema por falta de conhecimento/esclarecimento sobre o assunto. Também temos os questionários das avaliações que realizamos em algumas atividades: é espetacular o nível das respostas nos testes pós-cursos comparados aos pré-cursos.

Biotec Pra Galera - Quais temas da biotecnologia geram mais dúvidas e interesse nos alunos?

Leila Beltramini - Eu diria que dúvidas quase todos, daqueles conhecidos desde os primórdios da humanidade como os processos de fermentação (fabricação de pães, vinhos, cerveja) até os que tratam de terapia gênica. O gargalo na informação "é mais embaixo", como se diria no popular. É muito comum os estudantes, professores e jornalistas terem dúvidas se comem DNA em sua alimentação diária, ou então quando perguntamos onde eles imaginam estar o DNA em nosso organismo, respondem: no sangue, circulando. Isso por causa da informação que captam na mídia (por exemplo: teste do DNA para investigação de paternidade é associado com retirada de sangue). Falta a complementação da informação ou a explicação de que o DNA será extraído de células contidas no sangue. Para quase todos os fenômenos acabam faltando informações básicas, que deveriam ter sido ensinadas/discutidas nas últimas séries do ensino fundamental e no ensino médio. Assim, as dúvidas existem nos temas mais comuns, mas que também despertam o interesse em entender como o fenômeno ocorre. Entretanto, geram muito interesse: saber como é realizado e como são interpretados os testes de investigação de paternidade; o que são plantas transgências, como são produzidas e quais conseqüências para o homem/animal quando ingeridas; como são produzidos "medicamentos" em bactérias ou plantas (proteínas e peptídeos, como a insulina, hormônio de crescimento, e outros). Outro aspecto que deve ser ressaltado: tudo que é veiculado nos diferentes meios de comunicação fatalmente acaba chegando às salas de aula. Assim, é preciso que o professor esteja preparado para enfrentar os questionamentos e ter como se inteirar destes conteúdos rapidamente e de forma correta. Assim, por exemplo, no jornal CBME inFORMAÇÃO, disponível em PDF no site http://cbme.if.sc.usp.br, o professor pode localizar matérias que contemplam diferentes tópicos atuais da biotecnologia.

Biotec Pra Galera - Para os alunos que estão decidindo a sua carreira agora, a gente pode dizer que a biotecnologia é um campo do mercado de trabalho em expansão?

Leila Beltramini - Sim, em empresas do ramo de alimentos, que produzem o produto final, como é o caso de laticínios (incluindo os iogurtes e derivados), vinhos, cervejas. Indústrias farmacêuticas e de cosméticos, investindo em produção de proteínas e peptídeos recombinantes para fins terapêuticos (enzimas, colágeno, elastina, hormônios, queratina; inibidores de apetite, inibidores de enzimas, incluindo as da coagulação do sangue, receptores celulares diversos, peptídeos para tratamentos contra vírus da AIDS, entre outros). Empresas que desenvolvem o processo em si (de investigação científica que vendem seu "know-how"): produção de plantas transgênicas (como melhoramento dos alimentos em si) ou como "plantas medicamentos" que iriam servir de fonte de medicamentos. Enfim, estes são alguns exemplos, assim como a pesquisa científica dentro das universidades e institutos de pesquisa.

Biotec Pra Galera - Para quem gosta do tema, quais são as carreiras de graduação mais indicadas?

Leila Beltramini - Há cursos novos que estão sendo implantados no sentido de formar profissionais com formação interdisciplinar, voltados especificamente para esta área de atuação, a serem iniciados em 2006, no Instituto de Física de São Carlos-USP: Curso de Ciências Físicas e Biomoleculares (http://cbme.if.sc.usp.br/cfb); além de outros de Biotecnologia, já implantados em outras universidades. Dos cursos clássicos eu apontaria química, ciências biológicas, farmácia e bioquímica, biologia. Importante é que esses cursos contemplem disciplinas voltadas a estas atividades: bioquímica, biologia molecular, biologia celular, bioinformática, química computacional, química medicinal, química de produtos naturais e sintéticos, disciplinas diversas da área de física e físico-química.

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