Células-tronco dão origem a dente
Os pesquisadores brasileiros Monica e Silvio Duailibi estavam em Boston, nos Estados Unidos, no fatídico 11 de setembro de 2001. Ao mesmo tempo que estavam assustados com os atentados às Torres Gêmeas, comemoravam o resultado de sua pesquisa com células-tronco. O casal, em parceria com pesquisadores do Instituto Forsyth e do Hospital Geral de Massachusetts, conseguiu produzir uma coroa dentária usando células de ratos. O Biotec Pra Galera conversou com os dois, que explicaram mais sobre o processo.



ENTREVISTA - Ficha Técnica: Dr. Silvio Duailibi e Dra. Monica Duailibi - Formação: Dr. Silvio Duailibi é formado em odontologia pela Unicamp, mestre em Distúrbios da Comunicação Humana e doutor em Ciências pela Unifesp. Dra. Monica é formada em odontologia pela Faculdade de Odontologia de Santos, mestre em Distúrbios da Comunicação Humana e doutora em Ciências pela Unifesp.
Cargo atual: Professores e pesquisadores de engenharia tecidual do Centro Interdisciplinar de Terapia Gênica da Unifesp.

Biotec Pra Galera - O que é engenharia tecidual?

Silvio e Monica - Engenharia tecidual é um ramo do conhecimento que visa criar órgãos e partes humanas substitutas, usando princípios da biologia com as técnicas da engenharia. Explicando melhor: é o uso das terapias celulares, seja engenharia gênica, cultura de célula-tronco ou terapia celular, com uma estrutura de polímero reabsorvível em 3D na forma do órgão a ser construído. Por exemplo, se for construir um coração, você faz a estrutura do coração em polímero, que vai ser semeado com células que se desenvolverão em células do novo tecido.

Biotec Pra Galera - Como se fosse uma forma de gelo?

Silvio e Monica - Ao contrário. Na forma de gelo você coloca a água dentro. Na estrutura de polímero as células ficam dentro e em volta.

Biotec Pra Galera - De onde foram tiradas as células que geraram o dente de rato na sua pesquisa?

Silvio e Monica - Foram células progenitoras, que são de controle mais fácil do que células-tronco embrionárias e que podem ser colhidas em locais específicos do indivíduo doador. O grupo de pesquisa a que a gente pertence, nos Estados Unidos, desenvolveu um primeiro trabalho usando células de porco implantadas em ratos imuno-suprimidos (com resistência imunológica "baixa"), para evitar rejeição. O segundo passo, feito pela gente, foi escolher um animal da mesma espécie para ser doador e receptor - o rato. Usando esse modelo, pegamos germes dentais (as células que vão gerar o dente) em desenvolvimento, ou seja, as células progenitoras antes de gerarem órgãos, e conseguimos organizá-las em um órgão novo. O material foi retirado de um rato recém-nascido, chamado baby rat em inglês.

Biotec Pra Galera - E depois de colher as células, o que acontece?

Silvio e Monica - Depois de tirar o germe, a gente fazia uma cultura para separar as células-tronco. Aí, as células eram colocadas na estrutura de polímero, formando o "construct", que era colocado no abdômen do rato receptor. Depois de 12 semanas, verificamos que o tecido realmente tinha crescido.

Biotec Pra Galera - E por que o "construct" foi colocado no abdômen do rato?

Silvio e Monica - Ele foi colocado no omento, que é uma membrana de proteção. Ela é muito delicada e muito vascularizada, o que facilita a alimentação do "construct".

Biotec Pra Galera - É possível fazer a mesma coisa com humanos?

Silvio e Monica - Em teoria, sim. Hoje estamos trabalhando com doadores humanos de tecidos e estamos implantando em animais imuno-suprimidos. Os tecidos dos doadores precisam estar em formação e clinicamente têm que ser removidos. São casos em que há uma indicação clínica para a remoção, a gente não abre a pessoa e tira o seu dente à toa. Pode ser caso em que a pessoa vai usar aparelho e precisa extrair um dente, ou um siso que tem de ser removido, por exemplo.

Biotec Pra Galera - Qual a perspectiva de tempo para que a técnica seja completamente aplicável a humanos?

Silvio e Monica - Depende de financiamento. Se o governo resolver investir, de 5 a 7 anos a gente consegue fazer. A tecnologia já existe, o que falta é vontade política. Mas aí entramos num ponto extremamente delicado. Se o governo entender que biotecnologia pode dar independência e soberania para a nação, ele deve investir. Senão vamos continuar sendo escravos das patentes estrangeiras. Não que não deva haver patentes lá fora, mas você só é livre quando encontra soluções para os seus problemas dentro de casa, usando os seus próprios materiais e produtos e as cabeças que você tem. Só para você ter uma idéia, o estado da Califórnia no ano passado disponibilizou US$ 3 bilhões para pesquisas de biotec. Aqui as cifras são muito menores.

Biotec Pra Galera - Qual o orçamento necessário para sua pesquisa?

Silvio e Monica - A gente precisaria de US$ 1 milhão para desenvolver a pesquisa fortemente, em nível competitivo, visando à patente não só para dente, mas para tecidos mineralizados como osso, cartilagem e dente. Hoje quem nos dá um apoio grande é a Fapesp, que no final do ano passado nos deu uma verba total de R$ 95 mil. Foi a primeira verba que recebemos para a pesquisa. Quando fomos aos Estados Unidos estudar a técnica, quem nos financiou foi a Capes. A pesquisa lá era feita com verbas da Harvard, onde a gente gastava US$ 10 mil por mês.

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