Células-tronco podem ajudar pacientes cardíacos
O Brasil está realizando atualmente um vasto estudo sobre o uso de células-tronco em pacientes com doenças no coração. A pesquisa envolve mais de 40 centros em nove estados brasileiros, além do Distrito Federal. A intenção é trabalhar com 1.200 pacientes divididos em quatro grupos (os com doença de Chagas, infarto agudo do miocárdio, isquemia crônica e cardiomiopatia dilatada) e checar se as células-tronco auxiliam no tratamento da doença.
O Biotec Pra Galera conversou com a Dra. Valeria Bezerra de Carvalho, que está participando da pesquisa no estudo de pacientes com doença de Chagas. |
 |
ENTREVISTA - Ficha Técnica: Valeria Bezerra de Carvalho - Formação: Mestrado, doutorado e livre-docência em cardiologia pela Universidade de São Paulo. Cargo atual: Cardiologista credenciada, entre outros, do Hospital da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência de SP, Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein. |
 |
Biotec Pra Galera - Por que a doença de Chagas causa danos ao coração do paciente?
Dra. Valeria - Existem algumas teorias para explicar a ação do protozoário causador da doença de Chagas no miocárdio. Uma seria o efeito direto do protozoário, que raramente é encontrado na cardiopatia chagásica crônica. Ou seja, em torno do parasita se forma uma reação inflamatória e isso prejudica o coração. Mas isso é muito raro. O que se admite é que o mecanismo fundamental talvez seja a resposta autoimune à agressão feita pelo parasita. Essa resposta autoimune levaria ao processo inflamatório do coração, o que não tem nada a ver com a agressão direta do parasita. Esse processo inflamatório vai destruindo algumas ou várias fibras cardíacas, induzindo à formação da fibrose, que é aquele tecido rígido e que prejudica a função de "bomba" do coração.
Biotec Pra Galera - Como as células-tronco podem reverter esse quadro?
Dra. Valeria - A expectativa não é que as células-tronco consertem isso, mas que diminuam um pouco essa resposta inflamatória, como já foi provado experimentalmente em animais. Em estudos anteriores, verificou-se a diminuição desse infiltrado inflamatório no coração de ratos. Mas ainda não temos uma resposta real se isso acontece no homem. Existe um estudo-piloto, não-randomizado, que envolveu cerca de 30 doentes e que mostrou algum benefício. Ou seja, é um estudo promissor, mas não conclusivo.
Biotec Pra Galera - Como está sendo feito o estudo brasileiro?
Dra. Valeria - O que estamos fazendo no Brasil é um grande estudo multicêntrico coordenado pelo Ministério da Saúde, tentando arrolar 300 pacientes de Chagas para analisar esse segmento por um ano. Esses doentes serão submetidos à terapia com células-tronco para responder à questão se realmente existe um papel no tratamento de Chagas na regeneração do miocárdio com o uso de células-tronco. Para isso, o estudo é randomizado, o que quer dizer que há um sorteio: metade dos pacientes recebe o tratamento, enquanto a outra metade recebe apenas soro fisiológico. Isso é para comparar os dois grupos no final do ano e ver se existe alguma diferença entre eles. Não esperamos que a terapia vá restaurar a condição cardíaca. A perspectiva é que melhore um pouco a função cardíaca ou que funcione melhorando a secreção de algumas substâncias no próprio coração.
Biotec Pra Galera - Qual é a origem das células-tronco usadas no estudo?
Dra. Valeria - O material é colhido na medula óssea do próprio paciente para ser reinjetado nas coronárias.
Biotec Pra Galera - As células-tronco são injetadas somente no local lesionado ou no coração como um todo?
Dra. Valeria - Elas são injetadas nas artérias coronárias, e daí são levadas pelo sangue até o miocárdio.
Biotec Pra Galera - Que outros tipos de doenças coronárias podem se valer dessa terapia?
Dra. Valeria - Nesse próprio estudo multicêntrico nós temos quatro grupos de doenças que estão sendo estudadas. Além de Chagas, temos a cardiomiopatia dilatada, que leva à dilatação do coração, o infarto agudo do miocárdio e a insuficiência coronária crônica, ou seja, não necessariamente o doente que teve infarto, mas que tem doença arterial coronária.
Biotec Pra Galera - Em que fase se encontra a pesquisa?
Dra. Valeria - No Brasil, atualmente, devemos ter em torno de 60 doentes de Chagas. Precisamos chegar aos 300 até o próximo ano. Mas é provável que, até o fim deste ano, se faça uma análise desses casos iniciais para ver como está indo a pesquisa.
Leia também:
Bate-papo com a professora Paula Trevilatto.
Bate-papo com a professora Irene Schrank, da UFRGS.
Bate-papo com o professor Agenor Furigo Junior, da UFSC.
Bate-papo com o professor Luís Maurício Trambaioli da Rocha e Lima.