Bancos de sangue de cordão umbilical e de placenta e Células-tronco embrionárias humanas

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ENTREVISTA - Ficha Técnica: Patrícia Pranke - Formação: Farmácia e Análises Clínicas na Universidade Federal de Santa Maria, Mestrado em Hematologia na UNICAMP, Doutorado em Genética e Biologia Molecular na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e no New York Blood Center (EUA). Cargo atual: Professora da disciplina de Hematologia da Faculdade de Farmácia da UFRGS e Chefe do Laboratório de Hematologia e Células-tronco da UFRGS. |
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Biotec Pra Galera - O Brasil tem hoje uma rede pública de bancos de sangue de cordão umbilical e placentário, que é uma grande fonte de Células-tronco. Qual a vantagem da rede pública em relação aos bancos de sangue privados?
Patrícia Pranke - A grande vantagem é que todos podem se beneficiar de um banco de sangue de cordão umbilical e placentário da rede pública. O material é coletado gratuitamente e fica armazenado sem custos para a população. Se um dia, eventualmente, alguém precisar de células-tronco, vai poder recorrer ao material que está armazenado nesses bancos da rede pública. Estima-se que com 4 mil amostras coletadas e armazenadas em uma determinada região, como Sudeste ou Sul por exemplo, é possível encontrar material compatível para qualquer pessoa. Em relação à medula óssea, você tem uma chance bem menor, de uma em cada 20 mil, de achar um doador compatível. Há menor rejeição com o sangue de cordão. Quanto mais amostras nos bancos da rede pública, mais gente pode ser beneficiada.
O banco privado, para começar, cobra a coleta e a manutenção. Se algum dia alguém precisar fazer uso de suas próprias Células-tronco, teoricamente, recorreria ao seu material congelado. Acontece que até hoje quase 95% da busca por transplantes desse tipo acontecem por doenças genéticas e leucemias. E nessas duas situações os especialistas não recomendam que se use as próprias Células-tronco. Ou seja, é melhor o paciente utilizar células de outra pessoa, desde que compatível. Para isso teria que recorrer a um banco de sangue da rede pública para achar células compatíveis com as suas. E em casos de outras doenças (os outros 5% das buscas por transplante de células-tronco) é provável que a pessoa possa usar sua própria medula óssea, ou seja, seu cordão não precisaria ter sido guardado em um banco privado.
Biotec Pra Galera - Por quanto tempo essas células podem ser armazenadas?
Patrícia Pranke - A resposta é que ainda não sabemos. O material mais antigo congelado tem 14 anos. Só o tempo e a experiência vão poder nos dizer por quanto tempo esse material congelado vai ter viabilidade para seu empregado nos transplantes.
Biotec Pra Galera - Em que doenças as Células-tronco de cordão umbilical e placenta já podem ser usadas terapeuticamente?
Patrícia Pranke - O primeiro transplante de células tronco de cordão e placenta aconteceu em 1988. Desde então muitos desses transplantes já foram realizados no mundo. Eles podem ser utilizados basicamente em todos os tipos de doença em que se poderia fazer um transplante de medula óssea, como leucemias, linfomas, aplasia de medula e doenças auto-imunes como o lúpus e a esclerose múltipla. E há pesquisas clínicas de outros tipos de uso para essas células, como a reposição de células da pele (em casos de queimaduras graves) ou ainda de células cardíacas para pessoas que sofreram um infarto.
Biotec Pra Galera - As Células-tronco de cordão apresentam vantagens em relação às células-tronco embrionárias?
Patrícia Pranke - Ambas são importantes, com algumas diferenças entre suas vantagens e desvantagens. As Células-tronco que estão no cordão são exatamente as mesmas células que estão na medula do bebê. No cordão, existem vários tipos de Células-tronco, como as que vão dar origem às células do sangue e também aquelas que vão gerar diversos tecidos do corpo. Elas são muito mais fáceis de serem utilizadas e empregadas do que as Células-tronco embrionárias. Do ponto de vista biológico, as Células-tronco do embrião são mais potentes que as do cordão, já que elas podem dar origem aos mais de 200 tipos de tecidos diferentes. Mas do ponto de vista prático, até hoje, em nenhum lugar do mundo foram usadas Células-tronco embrionárias em seres humanos. Isso só foi feito, em laboratório, com animais e sob um rigoroso controle. Essas células embrionárias têm que ser cultivadas, diferenciadas nos tecidos que vão ser utilizados para, aí sim, serem injetadas nos modelos animais. São células com um extraordinário potencial terapêutico para um futuro próximo, mas as células do sangue do cordão umbilical já estão sendo usadas com sucesso na clínica há quase duas décadas. A diferença é que as células do sangue do cordão podem tratar alguns tipos de doenças, mas não tanto quanto as células embrionárias deverão tratar no futuro.
Biotec Pra Galera - Mesmo congeladas há mais de três anos, as Células-tronco embrionárias ainda são viáveis para fins terapêuticos?
Patrícia Pranke - Em princípio sim, mas não sabemos exatamente por quanto tempo elas serão viáveis para fins terapêuticos. Para fins de pesquisa, o tempo que elas podem durar é bem mais do que três anos. É importante dizer que o prazo de três anos não tem a ver com a viabilidade das células e, sim, com um tempo para os pais pensarem melhor no assunto (decidirem o que vão fazer já que não querem implantar os embriões).
Biotec Pra Galera - Hoje, o que são feitos com os embriões congelados que não são mais utilizados pelo casal que buscou assistência com fins de reprodução?
Patrícia Pranke - A lei diz que essas células podem ser usadas para pesquisa depois de três anos de armazenagem, desde que haja consentimento formal dos pais. Antes da lei esses embriões eram descartados e não eram usados.
Biotec Pra Galera - Algumas pesquisas estão sendo feitas com o intuito de obter células-tronco sem que haja a destruição dos embriões. Essa é uma possibilidade real ou ainda é utópica?
Patrícia Pranke - Essa possibilidade é real, mas essa situação é muito peculiar. Primeiro não se sabe, ao certo, o que acontece ao embrião se uma célula for retirada. Depois é muito pouco provável que alguém vá implantar um embrião que foi manipulado dessa forma.
Biotec Pra Galera - Em quais países a pesquisa com células-tronco embrionárias já é autorizada?
Patrícia Pranke - O Reino Unido tem uma das leis mais abertas a esse tipo de pesquisa, havendo espaço inclusive para clonagem para fins terapêuticos. Países como Austrália, Suíça, Suécia. Espanha, Singapura, Coréia, Japão e China também permitem essa pesquisa.
Biotec Pra Galera - Qual a situação do Brasil hoje em relação a esse tipo de pesquisa?
Patrícia Pranke - No Brasil já há algumas pesquisas com Células-tronco embrionárias humanas em andamento. Estamos trabalhando com animais e ainda temos muito o que aprender.
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