Como você já sabe, a cada quinze dias publico nesta coluna uma entrevista com os maiores "feras" em biotecnologia, os pesquisadores dos principais institutos e universidades do País. A idéia é responder as dúvidas mais freqüentes sobre o tema, tudo isso de um jeito interessante e muito fácil de entender. Na entrevista de hoje, vamos tratar de nutrição e da contribuição que a biotecnologia pode dar para melhorar a qualidade dos alimentos que consumimos no nosso dia-a-dia. Confira!



ENTREVISTA - Ficha Técnica: Neuza Brunoro - nutricionista Cargo atual: pesquisadora e professora do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa - UFV (Minas Gerais). Coordenadora do livro Biotecnologia e Nutrição, publicado pela Editora Nobel e lançado pelo CIB em parceria com a universidade

Biotec pra Galera - As vantagens da biotecnologia no cultivo de alimentos são bem conhecidas (como o aumento de resistência das plantas a herbicidas ou a doenças). E para quem consome os alimentos, quais as vantagens que a biotecnologia pode trazer?

Neuza Brunoro - Os alimentos geneticamente modificados que estão sendo produzidos no Brasil e no mundo são os chamados da primeira geração, mais voltados para o aumento da produtividade e resistência a pragas. Entretanto, diversas pesquisas têm demonstrado o potencial da biotecnologia para aumentar o valor nutricional e funcional dos alimentos, bem como suas características sensoriais. Isso pode levar o alimento a expressar características mais agradáveis quanto à cor, ao sabor, à textura, à vida de prateleira, além de maior teor de minerais, vitaminas e antioxidantes, que poderão contribuir para melhorar a qualidade alimentar da população.

Biotec pra Galera - Qual a diferença entre os alimentos que são fortificados (como os cereais matinais) e os que apresentam maior concentração de nutrientes por causa da modificação genética?

Neuza - A fortificação poder ser feita de forma comercial, como as farinhas e cereais matinais com vitaminas e minerais, por exemplo, ou ainda por meio da biotecnologia (biofortificação). Ambas as formas são importantes como medidas preventivas para o surgimento de carências nutricionais. A fortificação de farinhas com ferro, por exemplo, tem sido uma estratégia eficaz na redução da prevalência de anemia, em países desenvolvidos. A fortificação das farinhas de trigo e de milho, que será obrigatória no Brasil a partir desse ano, tem esse objetivo. Muitos indivíduos, entretanto, não têm acesso a alimentos processados e produzem os seus próprios alimentos, como os pequenos produtores rurais, que têm suas lavouras de milho e produzem seu próprio fubá. Para esses indivíduos, principalmente, a biofortificação tem uma grande vantagem sobre a comercial, pois o agricultor poderá produzir um milho com melhores características nutricionais e ter os benefícios da fortificação. As duas formas são interessantes e complementares em países menos desenvolvidos como o nosso.

Biotec pra Galera - Quais alimentos que se valeram da biotecnologia para apresentar mais nutrientes já estão disponíveis no mercado?

Neuza - Se usarmos o termo biotecnologia para nos referirmos também ao melhoramento genético convencional, podemos dizer que a maioria, senão todos os alimentos que consumimos, foram melhorados quanto ao seu valor nutritivo ao longo dos anos. O alimento que consumimos hoje não tem a mesma composição do que foi produzido pelos nossos ancestrais. Nos últimos anos têm sido produzidos grãos, como o milho QPM, com maior teor e maior qualidade protéica, soja com menos fatores antinutricionais, carne de porco com menor teor de gordura e colesterol e outros mais. Essas mudanças podem ser promovidas num menor espaço de tempo com a técnica do DNA recombinante, produzindo transgênicos com características desejáveis, como o arroz dourado (Golden rice), que contém altos níveis de betacaroteno, uma pró-vitamina A, com propriedades antioxidantes. Esses alimentos, entretanto, ainda não estão disponíveis no mercado.

Biotec pra Galera - O que são alimentos funcionais? Eles podem ser empregados como uma espécie de medicamento, como no tratamento de anemia, por exemplo?

Neuza - Alimentos funcionais são aqueles que além do seu valor nutritivo, promovem efeitos benéficos adicionais à saúde humana. Para se ter uma alegação de funcional, o alimento deve ter a propriedade de reduzir o risco de enfermidades, como câncer, doenças cardiovasculares, obesidade e outras. Não se pode dizer, entretanto, que o alimento funcional irá tratar, curar ou prevenir doenças. É importante frisar que o alimento pode reduzir o RISCO da doença se desenvolver. Embora o termo "alimento funcional" tenha sido usado como sinônimo de "nutracêutico", alguns países e eu particularmente, temos adotado o termo "alimentos funcionais" para os alimentos que podem ser consumidos como parte de uma dieta normal, incluindo frutas, hortaliças, nozes, cereais integrais, etc. Já os consumidos na forma de concentrados, cápsulas, tabletes, etc, seriam classificados como "nutracêuticos" e seu uso deve ser mais cauteloso e acompanhado por especialistas, quando indicado, pois têm o efeito de medicamento.

Biotec pra Galera - Existe alguma necessidade de acompanhamento médico para o consumo deste tipo de alimento?

Neuza - Quando consumido como parte de uma dieta normal não há necessidade de acompanhamento médico, mas, se usado na forma de concentrados, aí sim é necessário.

Biotec pra Galera - Que doenças podem ser prevenidas com o consumo de alimentos funcionais?

Neuza - Podemos dizer redução de risco de doenças, como câncer, doenças cardiovasculares, obesidade, osteoporose, etc. Como se trata de doenças multicausais, em geral, a alimentação tem um papel importante na sua prevenção, mas ela poderá se manifestar se outros fatores de risco não forem controlados, como tabagismo, sedentarismo, consumo de gorduras e de calorias em excesso, pressão arterial, etc. Na maioria dessas doenças a herança genética do indivíduo também é um fator de risco, que, nesse caso é mais difícil de se controlar. Mas uma alimentação saudável e adequada pode inibir a manifestação da doença, pois existe uma grande interação gene e dieta.

Biotec pra Galera - Já existem no mercado alimentos com fins médicos específicos? Por exemplo, alimentos que ajudam na recuperação de pacientes recém-operados ou no auxílio do sistema imunológico?

Neuza - Vários nutrientes têm papel importante no sistema imunológico, como zinco, cobre, vitamina E, vitamina C e outros. Alimentos como os probióticos também têm sido associados a efeitos benéficos na resposta imune. Portanto, o consumo de alimentos com esses compostos podem auxiliar na recuperação de enfermidades e no pós-operatório.

Biotec pra Galera - Se já é possível usar bactérias na produção de vacinas, será possível usar plantas alimentícias com esse fim também? Dá para ter vacinas que seriam ingeridas no próprio alimento?

Neuza - Em nível experimental já foram produzidas bananas, batatas, alface, milho, tabaco e tomate como veículos de vacinas para doenças como cólera, hepatite B, febre aftosa e outras doenças que podem afetar aves, bovinos, suínos e humanos. Essas vacinas não estão ainda sendo empregadas na prática.

Biotec pra Galera - A biotecnologia pode contribuir nas dietas especiais, como no tratamento de obesidade ou em casos de intolerância a alguns tipos de alimento?

Neuza - Para a obesidade, é necessário um acompanhamento do indivíduo, que deverá seguir um programa alimentar adequada à perda de peso e manutenção da sua saúde. Alguns alimentos podem ajudar nessa conduta, por exemplo aqueles que requerem altas proporções de calorias para serem metabolizados, como as proteínas, reduzindo as calorias que seriam depositadas no tecido adiposo. O uso de fibras faz reduzir a densidade energética da dieta e ajuda na redução do peso. Alguns tipos de óleos, como os poliinsaturados, são menos depositados do que os saturados e por isso tendem a ser mais usados para obesos, além de terem um efeito mais protetor contra doenças cardiovasculares. Os monoinsaturados, como os presentes no azeite de oliva, também são preferidos.

Quanto à intolerância, por exemplo, à lactose do leite, bebidas lácteas contendo Lactobacilus (probióticos) podem ser bem toleráveis, evitando diarréias e melhorando a resposta imune.

Biotec pra Galera - Que tipos de pesquisa têm sido feitas na UFV na relação da biotecnologia e nutrição? Os resultados têm sido animadores?

Neuza - Temos participado de algumas pesquisas usando alimentos melhorados por técnicas convencionais, como milho, feijão e soja, em parceria com o BIOAGRO (Instituto de Biotecnologia da UFV) e com a EMBRAPA. Os resultados em geral são muito bons e promissores. Esperamos poder estender as nossas linhas de pesquisa, buscando avaliar a biodisponibilidade de minerais desses produtos e seus efeitos fisiológicos, como a redução do colesterol sangüíneo, a modulação dos níveis de glicose em diabéticos e o controle de peso em obesos. Estamos abertos a novas parcerias e novas fontes de financiamento.

*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.

Leia também a entrevista com o professor Flávio Finardi Filho.

Leia também a entrevista com a nutricionista Neuza Brunoro.

Leia também a entrevista com a Farmacêutica - Bioquímica Alexandra Zilli Vieira.

Leia também a entrevista com o Engenheiro Agrônomo Francisco Aragão.

Leia também a entrevista com o Professor de Educação Física Alexandre Pagnani.

Leia também a entrevista com o Biólogo Marcelo Menossi.

Leia também a entrevista com a Professora Lucile Floeter-Winter.

Leia também a entrevista com a coordenadora do centro de estudos do Genoma Humano Mayana Zatz.

Leia também a entrevista com a Doutora em Engenharia Agrônoma Waldelice Paiva .

Leia também a entrevista com o professor Esper Kallás, da Unifesp, pesquisador do estudo mundial da vacina do HIV.

Leia também a entrevista com a advogada Patrícia Fukuma.

Leia também a entrevista com o Dr. Jefferson Braga Silva.

Leia também a entrevista com o Dr. Elíseo Joji Sekyia.

Leia também a entrevista com a Coordenadora do curso de biotecnologia da UFSCar Sandra Antonini.

Leia também a entrevista com o pesquisador da Embrapa João Batista Teixeira.

Leia também a entrevista com o Chefe da seção de virologia do Instituto Evandro Chagas Dr. Alexandre Linhares

Leia também a entrevista com o professor e pesquisador José Antonio Visintin

Leia também a entrevista com o Professor Gustavo Goldman

Leia também a entrevista com o Biólogo José Eduardo Levi

Leia também a entrevista com a professora Leila Beltramini

Leia também a entrevista com a professora Marguerite Quoirin

Leia também a entrevista com a doutora Gisela Andreoni

Leia também a entrevista com a professora Sandra Antonini

Leia também a entrevista com a pesquisadora Clara Goedert

Leia também a entrevista com os cientistas Monica e Silvio Duailibi

Leia também a entrevista com a bióloga Juliana Paz



globo pequeno