Células animais usadas na produção de biofármacos
O biofármaco é um medicamento obtido por meio de determinada fonte ou processo biológico, sendo normalmente derivado de bactérias ou células geneticamente modificadas para produzir o princípio ativo de interesse. Células animais já vêm sendo usadas para fabricação de biofármacos há várias décadas e são de grande importância no processo de síntese de proteínas.
O Biotec pra Galera conversou com a bióloga e Diretora de Serviço do Instituto Butantan, Ana Maria Moro, sobre a utilização de biofármacos e suas características.
 |
ENTREVISTA - Ficha Técnica: Ana Maria Moro - Formação: Bióloga, com mestrado em biologia molecular, doutorado em genética e pós-doutorado em biologia celular. Cargo atual: Pesquisadora Científica e Diretora de Serviço (Chefe de Laboratório) do Instituto Butantan. |
 |
Biotec Pra Galera - Qual a principal diferença entre um biofármaco e um remédio comum?
Ana Maria Moro - Um remédio comum, chamado de fármaco, é obtido em geral pela síntese química do seu princípio ativo. Um biofármaco é um medicamento obtido por alguma fonte ou processo biológico. Pode ser derivado do cultivo de bactérias ou células, como elas são encontradas na natureza ou, mais comumente, modificadas geneticamente (transgênicas) para produzir o princípio ativo de interesse. Biofármacos são também obtidos a partir de tecidos humanos ou de animais, como a albumina purificada do plasma humano ou a insulina.
Biotec Pra Galera -O uso de células animais para a fabricação de biofármacos é uma coisa recente ou já vem sendo feita há bastante tempo?
Ana Maria Moro - As células animais foram utilizadas inicialmente somente para a produção de vacinas virais, há várias décadas. Em 1975 dois pesquisadores inovaram ao fundir em laboratório duas células diferentes, criando uma célula híbrida (hibridoma) capaz de produzir anticorpo monoclonal por tempo ilimitado. Os hibridomas resultam da fusão de mielomas (células tumorais) com células do baço de camundongo, que foram imunizadas com alguma molécula de interesse, por exemplo, um antígeno de bactéria.
Os animais imunizados reagem produzindo anticorpos que são encontrados em grande número no baço. Quando as células do baço são fundidas com as células de mieloma, são formados os hibridomas, que portam características duplas, a capacidade de produzir anticorpos e a capacidade de reprodução ilimitada, como é próprio dos tumores.
Os anticorpos gerados podem ser selecionados de maneira clonal, vindo de uma única célula, dando origem aos anticorpos monoclonais, uma poderosa ferramenta tanto no diagnóstico como no uso terapêutico.
As técnicas de engenharia genética na década de 80 permitiram o início do desenvolvimento de células contendo genes recombinantes, permitindo a geração de outra classe de biofármacos, os recombinantes.
Biotec Pra Galera - As células animais apresentam vantagens se comparadas a bactérias e fungos para esse tipo de produção?
Ana Maria Moro - As células animais apresentam vantagens e desvantagens. As desvantagens são: crescimento lento, necessidade de meios de cultura mais complexos e caros, menor resistência aos mecanismos de agitação, entre outros. Contudo, as células de mamíferos são as únicas capazes de sintetizar proteínas com todos os elementos pós-traducionais necessários à sua atividade biológica in vivo. É preciso distinguir entre células de animais e células de mamíferos. Por exemplo, células de insetos são células animais e não são capazes de montar todas as estruturas, ainda que mais aptas que bactérias e fungos. Numa escala de aumento de complexidade e capacidade temos bactérias, fungos, células de insetos e células de mamíferos.
Biotec Pra Galera - Os animais passam por manipulação genética para isso?
Ana Maria Moro - De maneira geral não. As células mais comumente utilizadas na produção de biofármacos, como, por exemplo, a CHO, que foi isolada de ovário de hamster chinês e está disponível há bastante tempo. Existem alguns camundongos geneticamente modificados de forma a conter genes de anticorpos humanos; assim quando são imunizados na técnica de geração de hibridomas podem produzir anticorpos mais semelhantes aos humanos. Esses camundongos são patenteados.
Biotec Pra Galera - Quais são os animais mais utilizados hoje na produção de biofármacos?
Ana Maria Moro - Para a produção em si não são utilizados animais, a não ser no caso de anticorpos policlonais produzidos em cavalos (que não são geneticamente modificados para isso). Não existe biofármaco aprovado produzido por animal transgênico, somente pesquisas. Existem barreiras regulatórias para a aprovação desses produtos.
Alguns animais podem ser utilizados em ensaios biológicos para o controle de qualidade (camundongos e cobaias principalmente).
Biotec Pra Galera - Qual a diferença dos produtos mais atuais em relação aos tradicionais soros que também se valiam de animais?
Ana Maria Moro - Os soros produzidos por animais são heterólogos, isto é, vêm de outra espécie e podem provocar reações imunogênicas quando usados por longo tempo. Esses soros são utilizados para controle de envenenamento por animais peçonhentos ou controle de intoxicação e, portanto, usados por um tempo bem curto. Para o controle de doenças não seria possível usá-los.
Biotec Pra Galera - Os biofármacos podem ser feitos a partir de células vegetais também?
Ana Maria Moro - Tecnicamente sim, porém são imunogênicos, ou seja, são capazes de produzir imunidade por conterem componentes vindos de plantas, que não podem ser injetados. Não há nenhum produto injetável aprovado para uso humano que tenha sido produzido por plantas.
Biotec Pra Galera - Quais doenças mais se valem hoje da produção de biofármacos?
Ana Maria Moro - Anemias, hepatites, controle da rejeição de transplantes, cânceres, doenças auto-imunes e algumas doenças do metabolismo.
Biotec Pra Galera - Quais os biofármacos produzidos pelo Instituto Butantan
Ana Maria Moro - Vários biofármacos recombinantes estão em desenvolvimento. Resumidamente, o Butantan produz soros, vacinas tradicionais, vacinas produzidas por células (contra a raiva), vacinas recombinantes (contra a hepatite B) e mais recentemente surfactante pulmonar obtido de pulmão de porco. Recomendo a visita do site www.butantan.gov.br.
Leia também a entrevista com o professor Flávio Finardi Filho.
Leia também a entrevista com a nutricionista Neuza Brunoro.
Leia também a entrevista com a Farmacêutica - Bioquímica Alexandra Zilli Vieira.
Leia também a entrevista com o Engenheiro Agrônomo Francisco Aragão.
Leia também a entrevista com o Professor de Educação Física Alexandre Pagnani.
Leia também a entrevista com o Biólogo Marcelo Menossi.
Leia também a entrevista com a Professora Lucile Floeter-Winter.
Leia também a entrevista com a coordenadora do centro de estudos do Genoma Humano Mayana Zatz.
Leia também a entrevista com a Doutora em Engenharia Agrônoma Waldelice Paiva .
Leia também a entrevista com o professor Esper Kallás, da Unifesp, pesquisador do estudo mundial da vacina do HIV.
Leia também a entrevista com a advogada Patrícia Fukuma.
Leia também a entrevista com o Dr. Jefferson Braga Silva.
Leia também a entrevista com o Dr. Elíseo Joji Sekyia.
Leia também a entrevista com a Coordenadora do curso de biotecnologia da UFSCar Sandra Antonini.
Leia também a entrevista com o pesquisador da Embrapa João Batista Teixeira.
Leia também a entrevista com o Chefe da seção de virologia do Instituto Evandro Chagas Dr. Alexandre Linhares
Leia também a entrevista com o professor e pesquisador José Antonio Visintin
Leia também a entrevista com o Professor Gustavo Goldman
Leia também a entrevista com o Biólogo José Eduardo Levi
Leia também a entrevista com a professora Leila Beltramini
Leia também a entrevista com a professora Marguerite Quoirin
Leia também a entrevista com a doutora Gisela Andreoni
Leia também a entrevista com a professora Sandra Antonini
Leia também a entrevista com a pesquisadora Clara Goedert
Leia também a entrevista com os cientistas Monica e Silvio Duailibi
Leia também a entrevista com a bióloga Juliana Paz
Leia também a entrevista com a doutora Valeria Bezerra de Carvalho
Leia também a entrevista com o agrônomo Decio Gazzoni
Leia também a entrevista com a geneticista Patrícia Pranke