Uma nova vacina para tuberculose a caminho




ENTREVISTA - Ficha Técnica: Célio Lopes Silva - Farmacêutico - Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, 1976. Mestre em Bioquímica - Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, 1978. Doutor em Bioquímica - Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, 1981. Professor Livre-Docente em Microbiologia Médica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 1986. Pós-doutorado na área de Biologia Molecular, no National Institute for Medical Research, em Londres, Inglaterra, entre 1989 e 1991.
Cargos atuais: Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências. Professor Titular de Imunologia da FMRP-USP. Coordenador do Centro de Pesquisas em TB da FMRP-USP. Membro do Comitê Assessor do Programa Nacional de Controle da TB do Ministério da Saúde, desde 2003. Membro efetivo e consultor da OMS para a área de vacinas.

Biotec Pra Galera - Qual a diferença entre a BCG, vacina que já é usada há bastante tempo na prevenção da tuberculose, e a vacina gênica?

Célio Lopes Silva - A BCG é uma vacina que contém o bacilo Mycobacterium bovis vivo e atenuado. Portanto, é uma vacina que contém centenas ou milhares de componentes. A vacina gênica em desenvolvimento pelo nosso grupo contém a mensagem genética (gene) para expressão (fabricação dentro da célula do indivíduo vacinado) de uma única proteína antigênica.

Biotec Pra Galera - Na vacina é usado todo o material genético da bactéria ou apenas uma parte dele?

Célio - Apenas o gene que expressa a proteína hsp65 de micobactérias.

Biotec Pra Galera - Para que a vacina gênica fosse desenvolvida, houve o mapeamento genético do bacilo de Koch, a bactéria causadora da tuberculose?

Célio - A vacina foi desenvolvida antes do mapeamento genético do bacilo de Koch. Já sabíamos que a proteína hsp65 de micobactérias era um dos melhores antígenos para estimular o sistema imunológico de animais de experimentação e do homem. Quando iniciamos o projeto em 1990, já tínhamos o gene, que codifica a proteína hsp65, já clonado. Portanto, foi uma obra de engenharia genética, pegando o respectivo gene e realizando uma clonagem em vetor plasmideal adequado. Esse plasmídeo, que carrega o gene hsp65, foi colocado dentro de uma bactéria Escherichia coli para produção do plasmídeo em grande quantidade e depois purificado. Esse plasmídeo purificado se constitui na vacina gênica propriamente dita.

Biotec Pra Galera - A vacina gênica pode ser usada de modo terapêutico, em pacientes que já estejam com a doença?

Célio - A vacina gênica foi utilizada no tratamento da doença, em conceito diferente em relação às vacinas convencionais, que são utilizadas somente como prevenção à instalação da doença. Essa vacina de DNA cura a infecção, cura a doença estabelecida e impede que ocorra a reativação da doença, sem perder a sua característica profilática. Os benefícios práticos e estratégicos resultantes do desenvolvimento dessa vacina com atividade terapêutica contra a tuberculose são inúmeros. Ela é segura, eficaz, pode ser dada em uma única dose, estimula amplamente a resposta imunológica, tem efeito protetor duradouro e pode contribuir significativamente para a diminuição da incidência da doença e talvez a sua erradicação.
(*Para saber mais sobre a vacina gênica, leia texto abaixo, ao final da entrevista)

Biotec Pra Galera - A tuberculose é uma das doenças recorrentes em pacientes com Aids. Eles também poderiam receber a vacina gênica contra tuberculose ou há contra-indicações?

Célio - Achamos que ela seria benéfica para a cura dos pacientes com Aids. Estamos propondo no momento, um ensaio clínico para pacientes coinfectados, ou seja, portadores da tuberculose e da Aids.

Biotec Pra Galera - Já foram feitos testes em humanos com a vacina?

Célio - Foram feitos para tratamento (imunoterapia) de pacientes com câncer e com bastante sucesso.

Biotec Pra Galera - A técnica de desenvolvimento de vacinas gênicas pode ser usada contra doenças causadas por vírus também?

Célio - As vacinas gênicas têm amplas aplicações: doenças infecciosas em geral (bactérias, vírus, fungos, parasitas), alérgicas, autoimunes e câncer.

Biotec Pra Galera - Já há alguma outra vacina gênica disponível?

Célio - Em uso ainda não. Dados da literatura mostram que existem em torno de 150 vacinas gênicas em ensaios clínicos atualmente. Algumas em fase III.

Biotec Pra Galera - Em quanto tempo se espera que a vacina gênica contra tuberculose esteja disponível?

Célio - Se depender dos órgãos financiadores de pesquisa e de empresas vai demorar muito - faltam recursos para ensaios clínicos (aparentemente ela não é prioritária para os órgãos de saúde).

Conheça mais asobre a vacina gênica, clique aqui.

 

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