Alimentos transgênicos


















ENTREVISTA - Ficha Técnica: Edson Watanabe - Engenheiro de Alimentos.
Pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

Biotec Pra Galera - Atualmente, no mercado brasileiro há mais alimentos geneticamente modificados disponíveis na forma “pura” (como grãos prontos para consumo) ou incluídos como ingredientes de alimentos industrializados?

Edson - Eu diria que, no Brasil, há mais alimentos geneticamente modificados (GM) incluídos como ingredientes de alimentos industrializados. Isso porque, tradicionalmente, não somos grandes consumidores de, por exemplo, soja em grão. Logicamente, há aquelas pessoas que consomem grãos de soja regularmente ou que consomem os grãos depois de processados como tofu, “carne de soja” ou “leite de soja”; entretanto, tal grupo constitui uma pequena minoria. Além do mais, o grande mercado para soja e milho no Brasil é a indústria de ração animal. No que se refere a ingredientes, sabe-se que a maior parte dos alimentos industrializados contém em sua composição um ou mais ingredientes derivados da soja (como, por exemplo, concentrado protéico, lecitina ou óleo refinado) e/ou do milho (xarope de glicose, amido etc.). Vale ressaltar que, no momento, o plantio e a comercialização de nenhum milho transgênico destinado ao consumo humano estão autorizados no Brasil.

Biotec Pra Galera - Todos os produtos geneticamente modificados passam por testes de segurança antes de serem usados como ingredientes de outros alimentos?

Edson - Todos os alimentos geneticamente modificados devem passar por uma avaliação de segurança antes de serem aprovados para comercialização. Assim, por exemplo, se uma variedade de soja for avaliada como segura e aprovada para consumo, todos os seus derivados (seja a farinha de soja, o concentrado protéico, a lecitina ou qualquer outro) também serão considerados seguros e aprovados para consumo.

Biotec Pra Galera - Como são feitos esses testes?

Edson - A avaliação de segurança de um alimento GM é rigorosa, demorada e cara. Compreende a avaliação do produto desde o momento em que uma característica desejável é descoberta (por exemplo, um gene que produz uma proteína que confere tolerância a um herbicida específico, que será, posteriormente, inserido em uma planta). No que se refere à segurança alimentar, são realizados testes de composição (onde são determinados e avaliados os níveis de macro e micro nutrientes, de componentes-chave, de componentes antinutricionais e/ou tóxicos e os efeitos do processamento/cocção), de equivalência nutricional, de toxicidade e de alergenicidade. Isso sem citar muitos outros testes, que não estão diretamente relacionados à segurança alimentar, como a caracterização agronômica, a caracterização molecular e os estudos de impacto ambiental.

Biotec Pra Galera - Quais são as vantagens dos alimentos geneticamente modificados? Há algum risco?

Edson - Deixando de lado as vantagens “comerciais” (aumento de produtividade e menor aplicação de herbicidas), motivo de muito debate, umas das vantagens que mais chamam a atenção é, no caso do milho resistente a insetos (milho Bt), a menor incidência de micotoxinas (substâncias tóxicas derivadas de contaminação da espiga por fungos), devida ao controle eficiente das lagartas. Essa toxina pode causar sérios problemas à saúde humana e de animais alimentados com rações produzidas com milho por ela contaminado. Além dessa vantagem, a modificação genética permite o desenvolvimento de uma planta com uma característica desejada num prazo mais curto (quando comparamos a transgenia com as técnicas tradicionais de melhoramento de plantas).

Todos os alimentos GM, se aprovados para consumo, são seguros. Contudo, nunca podemos falar de risco “zero”, impossível de se obter para qualquer coisa. Entretanto, posso garantir que nenhum alimento desenvolvido por qualquer outro tipo de tecnologia passa por avaliações de segurança tão rigorosas quanto às que são submetidos os alimentos GM. Para se ter uma idéia, nenhum dos testes acima são exigidos para variedades de grãos desenvolvidas por técnicas de melhoramento convencional .

Biotec Pra Galera - Hoje o consumidor tem como saber se está ingerindo um produto transgênico ou muita gente consome sem saber?

Edson - No Brasil, a rotulagem de alimentos geneticamente modificados é definida pelo Decreto 4.680 de 2003, que determina a rotulagem de alimentos e ingredientes alimentares destinados ao consumo humano ou animal que contenham ou sejam produzidos a partir de organismos geneticamente modificados, com presença acima do limite de 1% do produto. Tal decreto estipula, inclusive, a rotulagem de grãos vendidos a granel. Não cabe discutir aqui os detalhes desse decreto e sua aplicabilidade. Entretanto, gostaria de esclarecer que a rotulagem não é uma questão de segurança, mas de direito do consumidor à informação. Se o produto não fosse seguro, ele não teria sido aprovado para consumo.

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