ENTREVISTA - Ficha Técnica: Vasco Ariston de Carvalho Azevedo - Formação: Médico Veterinário pela Escola de Medicina Veterinária da UFBA, mestre e doutor em Genética de Microrganismos pelo Institut National Agronomique Paris-Grignon e Livre-docente em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
Cargo Atual: Professor Associado e Coordenador do Programa de Genética do Departamento de Biologia Geral do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Presidente da Comissão de Biotecnologia e Biossegurança do Conselho Federal de Medicina Veterinária.

Biotec Pra Galera - A febre aftosa tem causado muitos problemas para os criadores de gado no Brasil, apesar de já haver vacinas que previnem a doença. Como funcionam essas vacinas? Elas são eficazes?

Vasco Azevedo - A vacina que previne contra a febre aftosa é trivalente, ou seja, é composta por três tipos de vírus inativados (A, O e C). Quando a vacina é administrada no animal, induz à formação de anticorpos, tornando-o imune contra estes vírus por um período de 90 dias a 12 meses, sendo ideal uma nova aplicação a cada 6 meses.

É importante ressaltar que nenhuma vacina é 100% eficiente. A vacina contra a febre aftosa apresenta uma boa eficácia e uma resposta imune rápida em 85% dos animais vacinados. Como a proteção não é total, pode ocorrer o desenvolvimento da doença em uma pequena parcela dos animais vacinados. A ausência de cuidados adequados na conservação e aplicação da vacina, assim como a perda de prazo para aplicação de uma nova dose, também pode resultar no aparecimento de animais infectados .

Biotec Pra Galera - Há muitas doenças veterinárias que ainda não podem ser combatidas com vacina?

Vasco - Atualmente, são mais de 300 opções de vacinas comerciais para os principais agentes causais de interesse veterinário. No entanto, outras doenças infecciosas consideradas importantes, do ponto de vista econômico, ainda não podem ser prevenidas com vacinas como, por exemplo, para a Paraplexia Enzoótica dos Ovinos - Scrapie, doença degenerativa do sistema nervoso e a Encefalopatia Espongiforme Bovina (BSE, na sigla em inglês), conhecida como doença da vaca louca. Além delas, para a Febre Catarral Maligna, Peste Bovina (rinderpest) e Encefalite Eqüina (EEE) também ainda não foram desenvolvidas vacinas.

Biotec Pra Galera - Além de entrar na elaboração das vacinas, como a biotecnologia pode ser usada para combater doenças veterinárias?

Vasco - A biotecnologia pode ser usada para combater doenças veterinárias no desenvolvimento e produção de sistemas de diagnóstico molecular; suplementos alimentares; medicamentos e tratamentos; transferência de genes de uma população para outra, a fim de obter mudanças drásticas no potencial genético, proporcionando, por exemplo, a mudança da base alimentar ou a eliminação de doenças genéticas. Um programa governamental ambicioso, desenvolvido na Inglaterra, faz 10.000 testes de DNA de ovinos por semana para identificar animais resistentes ao "scrapie" (doença que causa tremor, semelhante ao mal da vaca louca) e somente depois disso os animais são usados nos programa de seleção.

Biotec Pra Galera - A gente sabe que hoje muitas doenças humanas são mais complicadas de se tratar por causa da resistência dos microorganismos. Isso também se aplica às doenças veterinárias?

Vasco - A prática médica moderna introduziu o uso de antibióticos para se combater diversos tipos de infecções bacterianas. Entretanto, o uso abusivo e muitas vezes indiscriminado levou a uma intensa pressão de seleção sobre bactérias portadoras de genes que codificam mecanismos que impedem a ação de diversos antimicrobianos. Todavia, esse fenômeno se aplica às bactérias de uma forma geral, tanto as que causam doenças em homens quanto as que causam doenças em animais. Um exemplo seria a bactéria Campylobacter jejuni, causadora de gastroenterite em animais e humanos, que é resistente a vários antibióticos. Curiosamente, genes de resistência também são observados em bactérias não patogênicas (que não causam doenças) e em outras que vivem em locais onde não há antibióticos. O fenômeno da resistência é global, grave e preocupante, constituindo um enorme problema para a saúde pública. Na veterinária, na ração animal, principalmente para suínos e aves, são misturados o que chamam de promotores de crescimento (antibióticos). Esta prática foi proibida na Europa desde 2005 e, conseqüentemente, como o Brasil é um grande exportador de carnes, ele é obrigado a seguir as normas e, com isso, abolir o uso de antibióticos na ração animal.

Biotec Pra Galera - É possível "enganar" bactérias como a E. coli, que são transmitidas aos humanos por meio da carne bovina, introduzindo genes que acabem com a sua força para causar doenças (patogenicidade)?

Vasco - É possível diminuir a virulência e enfraquecer as bactérias causadoras de doenças, introduzindo genes, retirando-os do genoma ou inativando os genes que irão interferir em alguns de seus processos biológicos. É por meio destas técnicas de modificações gênicas que as novas vacinas são construídas.

Biotec Pra Galera - Do mesmo modo que a biotecnologia é capaz de produzir plantas resistentes a parasitas, é possível criar animais que também sejam resistentes aos seus parasitas? Isso já é feito?

Vasco - As aplicações da biotecnologia moderna na área animal são múltiplas e têm um mercado potencial de bilhões de dólares por ano. Há investimentos significativos em pesquisa para desenvolver produtos que incrementem a produção e gerem animais que sejam capazes de produzir proteínas terapêuticas, modelos de estudos para doenças humanas e fornecedores de órgãos para os seres humanos. Essas pesquisas utilizam ferramentas genéticas que foram desenvolvidas pela tecnologia do DNA recombinante e da transgênese. Uma das técnicas é a produção de animais transgênicos resistentes a doenças por meio de métodos que utilizam a transferência de genes. Diferentes genes, que conferem resistência a doenças, já foram identificados e clonados. O gene Mx1 de camundongos, por exemplo, que confere resistência seletiva ao vírus da doença influenza (gripe), tem sido utilizado em homens, bovinos, suínos e ratos. A proteína Mx1 inibe o acúmulo de RNAm do vírus e, portanto, animais transgênicos portadores de tal gene são resistentes à influenza. Outro estudo foi realizado em coelhos contra o adenovírus h5 (Ah5), mas essa técnica é ainda limitada em animais domésticos.

Outro exemplo é o uso de animais geneticamente modificados para serem resistentes ao carrapato bovino Boophilus microplus. Essa seleção é realizada pelo melhoramento genético, utilizando a seleção assistida por marcadores. Esta característica contém herdabilidade classificada entre moderada e alta. Assim, a identificação de marcadores genéticos para a resistência a parasitas possibilita maior eficiência na seleção para essa característica.

Biotec Pra Galera - Como o mapeamento do genoma de microrganismos patológicos pode ajudar a medicina veterinária?

Vasco - O mapeamento do genoma estabelece a localização dos genes e permite determinar a distância existente entre eles, e foi um dos objetivos dos projetos de seqüenciamento.

O mapeamento, juntamente com informações relacionadas a funções gênicas, tem possibilitado a caracterização de genomas completos de microrganismos patogênicos. A partir da identificação de genes de virulência desses organismos, tem sido possível o desenvolvimento de vacinas e a busca por medicamentos que inibam o próprio gene ou a ação das proteínas codificadas por ele, além de permitir encontrar marcadores (seqüências) importantes para diagnóstico de doenças animais.

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