Olá, pessoal! O Bate-Papo conversou com a professora Aoi Masuda, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRG), a respeito de carrapatos! Por mais repugnante que o assunto possa parecer, a especialista em vacinas esclareceu os principais aspectos da imunologia contra esses parasitas e a participação importante da biotecnologia nesse processo. |
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ENTREVISTA - Ficha Técnica: Aoi Masuda - Formação: Doutora em imunologia e microbiologia pela UNIFESP. Cargo Atual: Professora Associada do Departamento de Biotecnologia e Biologia Molecular (UFRGS). |
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CIB - Quando se fala em vacina, vem sempre a idéia de doenças causadas por microorganismos (vírus, bactérias). É possível fazer vacina contra animais macroscópicos, como insetos e vermes?
Aoi Masuda - Sim. Uma pesquisa para o desenvolvimento de vacina para Schistosoma mansoni (verme causador da esquistossomose), por exemplo, está em andamento, e já foram descritos vários antígenos candidatos com potencial vacinal. Comercialmente, em alguns países, já existe até vacina contra o carrapato bovino.
CIB - Ectoparasitas (como carrapatos, por exemplo) – que ficam fora do indivíduo parasitado – podem ser reconhecidos pelo sistema imune e combatidos pelo organismo?
Aoi - Sim, o carrapato, por exemplo, se fixa na pele do hospedeiro e alimenta-se de sangue. Neste processo, o hospedeiro reconhece as estruturas (como peças bucais e proteínas da saliva do carrapato) que são transferidas para o hospedeiro. Bovinos inoculados com antígenos obtidos de carrapatos produzem anticorpos e, quando os carrapatos se alimentam destes animais, ingerem os anticorpos, que acabam circulando na hemolinfa (espécie de sangue), mantendo a atividade no corpo do carrapato. A vacina comercial contra o carrapato induz a produção de anticorpos contra células de intestino do parasita.
CIB - Nesse caso, como as células de defesa atuariam? Elas migrariam para a região da pele?
Aoi - Sim, no local de fixação do carrapato ocorre uma resposta inflamatória no corpo do bovino, que pode interferir no período de alimentação do carrapato, diminuindo (dificultando) a ingestão de sangue.
CIB - Isso também vale para o combate a doenças infecciosas, como AIDS?
Aoi - Cada doença terá genes específicos envolvidos, tanto genes diretamente envolvidos na fisiologia da doença como genes que metabolizem os fármacos, os quais geralmente também são específicos para as diferentes doenças.
CIB - A pesquisa para vacina bovina contra carrapatos pretende agir contra todos os tipos de carrapato, contra alguns específicos ou apenas contra aqueles carrapatos que estão contaminados e podem transmitir alguma doença ao animal?
Aoi - No Brasil, a vacina bovina contra carrapatos é dirigida para o Rhipicephalus microplus. Ele infesta principalmente os bovinos e é o principal causador de danos à bovinocultura. Neste caso, a procura de antígenos com reatividade cruzada (que atuaria sobre outros tipos de carrapatos) não é prioritária. No entanto, a pesquisa no sentido de encontrar antígenos que atuam de forma não específica tem sido realizada e, justifica-se nos casos em que diferentes espécies de carrapato podem parasitar um determinado hospedeiro.
CIB - Existem animais que, naturalmente, são resistentes à infestação por carrapatos?
Aoi - Em bovinos, o gado europeu (Bos taurus) é mais suscetível do que o gado zebuíno (Bos indicus). Os estudos indicam que o zebuíno é capaz de desenvolver uma resposta imunológica contra os carrapatos mais exacerbada.
CIB - A mesma lógica usada para a imunização contra o carrapato pode ser usada para eventuais estudos contra moscas que depositam larvas em animais?
Aoi - Sim, já foram testadas algumas proteínas de glândula salivar de moscas como imunógenos (substância geradora de resposta imune) e, foi demonstrado que os anticorpos contra estas proteínas interferem no sucesso reprodutivo destas moscas. Outros alvos como, por exemplo, antígenos de larvas também têm sido investigados.
CIB - A pesquisa pode abrir caminho para possíveis vacinas humanas contra, por exemplo, o piolho, a sarna, o chato, o berne?
Aoi - Pode, mas o objetivo é mais complexo, pois no caso das vacinas para animais de produção, o objetivo é uma redução do número de parasitas para um nível economicamente viável. No caso de humanos e animais de companhia, teríamos que eliminar todos os parasitas, e fazer isto com uma vacina é bem mais complicado.
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