Fungos que ajudam as plantas a crescer!
O Biotec pra Galera conversou com o professor Agenor Furigo Junior, da UFSC. |
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ENTREVISTA - Ficha Técnica: Agenor Furigo Junior - Formação: Engenheiro Químico pela Universidade Estadual de Campinas. Mestrado pela Unicamp. Doutorado no Programa de Engenharia Química da COPPE/UFRJ. Estágio doutoral na Universidade Técnica da Dinamarca. Cargo Atual: Professor da UFSC, Florianópolis (SC). Colaboradores: Profª. Vetúria Lopes de Oliveira, supervisora do Laboratório de Ectomicorrizas da UFSC e líder do grupo de pesquisa Microbiologia do Solo e Prof. Márcio José Rossi, responsável pelo cultivo de fungos em biorreator, também da UFSC. |
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Biotec pra Galera - Por que é interessante que alguns fungos cresçam nas raízes de árvores?
Agenor Furigo Junior - A associação simbiótica entre fungos e raízes é denominada micorriza. Esses fungos são simbiontes, ou seja, vivem em associação com outra espécie, em troca de uma vantagem, e oferecendo algum tipo de benefício. Dessa forma, uma vez que os fungos se associam às raízes das plantas, recebem açúcares oriundos da fotossíntese e garantem uma fonte de energia e carbono para seu crescimento. A planta, por sua vez, recebe deles nutrientes inorgânicos como fósforo e nitrogênio, que o fungo obtém de modo mais eficiente que as raízes. Plantas com micorrizas crescem melhor em solos pobres e não precisam ser adubadas com grandes quantidades de produtos químicos. Economiza-se em termos de adubação e o meio ambiente é favorecido pelo menor aporte de fertilizantes. Os fungos micorrízicos também protegem as plantas contra patógenos (organismos que desencadeiam doenças) e contra condições de estresse hídrico (como a falta de água). Além disso, o aumento da produtividade florestal advindo dessa associação diminui a pressão sobre os remanescentes das florestas nativas, pois se uma área de reflorestamento produz mais, não é necessário devastar novas áreas para produzir madeira.
Biotec pra Galera - Esses fungos estão naturalmente nas raízes ou têm de ser injetados?
Agenor - Em muitos locais, os fungos estão originalmente presentes nas raízes, mas a inoculação (colocação) de fungos previamente selecionados proporciona maiores benefícios. Alguns fungos micorrízicos que ocorrem naturalmente em certos locais podem não ser os mais compatíveis ou os mais eficientes para a espécie de planta que se deseja cultivar.
Biotec pra Galera - Hoje a inoculação já é feita rotineiramente em áreas de reflorestamento ou em florestais (para a produção de papel, por exemplo)?
Agenor - A inoculação de fungos selecionados ainda não é feita rotineiramente, mas as companhias reflorestadoras estão cientes da importância das micorrizas para o estabelecimento e crescimento das plantas e procuram introduzir nos viveiros de produção de mudas um pouco de solo ou de serrapilheira (restos de vegetação) de plantações adultas que contém os fungos micorrízicos. O risco, nesses casos, é de se introduzirem, juntamente com os fungos micorrízicos, patógenos e outras pestes. Daí a importância de se estabelecer um programa de inoculação com fungos previamente selecionados, por sua eficiência na promoção do crescimento da espécie vegetal de interesse. Para isso, é preciso fazer estudos de seleção e desenvolver técnicas de produção de inoculantes dos fungos selecionados.
Biotec pra Galera - Como funciona um biorreator nesse processo?
Agenor - Um biorreator é um equipamente de laboratório que facilita a multiplicação de organismos vivos e pode ser utilizado para produzir grandes quantidades de biomassa desses fungos. Para isso é necessário preparar um meio de cultura adequado para o fungo, com água, açúcares, proteínas e diversos sais. Ao meio já esterilizado é adicionada certa quantidade inicial de biomassa (pequenos fragmentos do fungo) para crescer. O biorreator tem a importante função de fornecer oxigênio para o fungo respirar, já que esses fungos, como a grande maioria, são aeróbios.
Biotec pra Galera - Qual a vantagem do uso de um biorreator na inoculação de fungos em algumas plantas comparado ao que se faz atualmente?
Agenor - Uma grande vantagem é a qualidade do inoculante. Num biorreator é possível fazer crescer o fungo com maior velocidade e dessa forma obter uma biomassa jovem, vigorosa, que poderá ter uma viabilidade e infectividade maior (capacidade de crescer e se multiplicar na planta, por exemplo). Além disso, nesse processo utilizam-se fungos puros e já selecionados para um melhor resultado frente às diferentes espécies de plantas e condições ambientais.
Biotec pra Galera - Além das micorrizas, outros organismos podem funcionar como “faxineiros” do solo para que a planta comercial cresça de forma mais saudável?
Agenor - Muitos micro-organismos do solo, principalmente bactérias e fungos, atuam como auxiliares do crescimento das plantas. Seja por mineralizar a matéria orgânica (decompô-la em substâncias minerais que podem ser consumidas diretamente pelos vegetais, como transformar uréia em nitrogênio, por exemplo), ou ainda por solubilizar nutrientes a partir de compostos insolúveis (como transformar rochas em substâncias químicas que também podem ser incorporadas imediatamente pelas plantas). Esses microrganismos também são capazes de transformar compostos tóxicos em formas menos tóxicas. Bactérias podem fixar nitrogênio da atmosfera e aumentar a fertilidade do solo. Mas esses não são os únicos. Pequenos animais que habitam o solo participam do processo de acumulação e transformação da matéria orgânica, contribuindo para melhorar a estrutura física da terra, o que coopera com o melhor crescimento das raízes.
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