Doping genético pode criar super-homens
Não é de hoje que alguns atletas apelam para o uso de substâncias químicas para melhorar a sua perfomance - são os famosos casos de doping. Com o avanço das pesquisas biotecnológicas, abriu-se uma nova possibilidade de "turbinar" o organismo dos esportistas. Por meio da manipulação genética, teoricamente seria possível que os atletas hipertrofiassem seus músculos sem a necessidade de praticar exercícios, transformando-se em verdadeiros super-homens. Há até quem acredite que as Olimpíadas de Atenas tenham sido o palco para os últimos jogos sem o "doping genético". Para explicar melhor esta relação entre biotecnologia e esporte, o Biotec pra Galera conversou com Alexandre Pagnani, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Combate ao Doping.
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ENTREVISTA - Ficha Técnica: Alexandre Pagnani - Educação Física - Cargos atuais: Presidente da Associação Brasileira de Estudos e Combate ao Doping e Presidente da Confederação Brasileira de Culturismo e Musculação |
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Biotec pra Galera - Existem estudos envolvendo a biotecnologia para potencializar os músculos de atletas?
Alexandre Pagnani - Existem, mas ainda deixam a desejar. O que estão tentando fazer é reproduzir em humanos o que acontece com o touro de raça belga. Este touro tem um defeito genético, que interfere na produção da miostatina. Esta proteína é responsável por limitar o crescimento dos músculos. Sem ela, os tecidos podem crescer infinitamente. Com a manipulação dos genes, teoricamente é possível criar um ser humano ultra-musculoso. O efeito que acontece no touro belga seria obtido em pessoas através de genes bloqueadores da miostatina.
Biotec pra Galera - Já se sabe de algum caso de atleta que tenha se valido da biotecnologia para melhorar sua performance?
Alexandre Pagnani - Não. Já se usam drogas que não interferem na estrutura genética, mas criam uma anomalia na estrutura esquelética. Uma delas é um complexo vitamínico chamado ADE, que é destinado para uso eqüino. Os fisiculturista usam esse complexo para uso localizado, injetando-o no bíceps, tríceps, na perna... Mas isso cria uma deformidade, porque não dá tônus muscular, só gera uma anomalia de densidade.
Biotec pra Galera - Se os atletas realmente apelarem para a mudança genética do músculo, o efeito é irreversível?
Alexandre Pagnani - É irreversível, o atleta vai ficar com o músculo hipertrofiado permanentemente.
Biotec pra Galera - Como é possível constatar essa alteração em atletas?
Alexandre Pagnani - Só existe um mecanismo possível: biopsia da fibra muscular. Se isso realmente começasse a ser colocado em prática, a Agência Mundial de Antidoping teria que se adequar a um novo processo de controle antidoping. Fazer a extração de uma biopsia é muito complicado. Fazer exame sanguíneo já é difícil, por causa da religião muçulmana de alguns atletas... O antidoping sanguíneo só foi adotado em modalidades em que foi aceito pela federação internacional do esporte, em comum acordo com todos os países filiados mundialmente.
Biotec pra Galera - É possível que, nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, já sejam aplicados exames para detectar alterações genéticas?
Alexandre Pagnani - Eu duvido muito. A biopsia seria o ideal para detectar o doping genético, mas vai ser muito difícil aprová-la.
Biotec pra Galera - O Comitê Olímpico Brasileiro está tomando medidas para barrar o doping genético?
Alexandre Pagnani - O COB, que é o órgão que deveria estar preocupado com isso, não tem nenhum trabalho de ação contínua no campo de pesquisas. O COB somente paga os controles de exames antidoping quando há movimentos de Jogos Panamericanos, Sul- Americanos e Olimpíadas. Fora deste contexto, a responsabilidade recai sobre as confederações, que deveriam, em tese, realizar os exames, mas na prática não é bem assim. Só 6 ou 7 modalidades olímpicas, das 29, é que fazem controle antidoping continuamente. Não há nenhum tipo de estudos científico no Brasil sobre este assunto.
Biotec pra Galera - E o COI?
Alexandre Pagnani - Quanto ao COI, ele em si não trabalha com estudos científicos. Por isso é que foi criada a Agência Mundial de Antidoping - para que não haja a conotação de que o COI estaria mascarando todas as ações de controle de dopagem. Com isso descentralizou-se o poder. O COI está fazendo investimentos na Agência Mundial de Antidoping para que sejam feitas pesquisas. Mas os estudos que são feitos não são divulgados para que não haja alarde no mercado.
Biotec pra Galera - Há correntes que não consideram a manipulação genética como doping, mas como um recurso lícito para os atletas?
Alexandre Pagnani - Existem, e isso é natural do ponto de vista científico. A reconstituição de tecidos e órgãos vai facilitar muito a vida do ser humano, o duro é identificar um parâmetro para definir o que é doping. Se chegarem ao ponto de realmente conseguirem desenvolver a manipulação genética neste sentido, vamos ter que adotar outros parâmetros para o espírito olímpico, porque os recordes vão ser quebrados continuamente por super-homens. A Paraolímpiada pode deixar de exisitir, por exemplo. Facilita muito neste sentido, mas tem o seu lado bom e o lado ruim. Eu queria que o paraolimpismo acabasse, que descobrissem mecanismos para fazer a pessoa voltar a andar, a enxergar. Seria uma maravilha. Por outro lado, os atletas seriam muito mais pressionados a quebrar recordes constantemente, o que muda o espírito de competitividade.
*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.
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