Dez milhões de implantes dentais são feitos por ano no mundo. Um processo trabalhoso e caro, pois o implante é feito com a colocação de um parafuso de titânio no osso, para o qual é preciso desembolsar entre R$ 1 mil a R$ 3 mil. Mas, para 3,5% das pessoas que passam pela técnica todo ano, é um esforço inútil e desperdício de dinheiro: os implantes não dão certo, pois há dificuldade de integração do titânio ao osso. Os motivos da rejeição podem ser fatores genéticos. Eles foram identificados por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), coordenados pela professora Paula Trevilatto. Poucos sabem, mas há dentistas fazendo pesquisas genéticas. E não poderia ser diferente, pois os genes podem estar por trás de vários males que nos obrigam todo ano a fazer uma visitinha ao consultório, como a cárie. Paula explica na entrevista abaixo qual é o caminho que um dentista deve percorrer para se tornar cientista



ENTREVISTA - Ficha Técnica: Paula Trevilatto - Formação: Biologia na Unesp de Rio Claro (SP) e, Odontologia na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (SP), da Unicamp.
Cargo Atual: professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Biotec pra Galera - Qual a sua formação acadêmica? Em que momento você optou por trabalhar com pesquisas genéticas?

Paula Trevilatto - Eu concluí dois cursos de graduação: primeiramente, Biologia na Unesp de Rio Claro (SP) e, depois, Odontologia na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (SP), da Unicamp. Sempre gostei de Genética e, já na primeira graduação, sabia que queria fazer pesquisa aplicada diretamente em seres humanos. Inclusive por isso, depois, iniciei outra graduação mais relacionada à área de saúde humana, no caso, odontologia.

Biotec pra Galera - Odontologia não é uma área que as pessoas costumam associar a pesquisas genéticas. Existem, no Brasil, cursos em genética ou biologia molecular específicos para quem se formou em odontologia? E no exterior?

Paula Trevilatto - Existem diversos cursos de atualização, especializações, mestrados e doutorados na área. A ideia é procurá-los em faculdades ou universidades que apresentam cursos na área de saúde.

Biotec pra Galera - Que caminhos um odontologista deve seguir para começar a atuar nessa área de genética?

Paula Trevilatto - Já na graduação, o aluno deve entrar em contato com pesquisadores orientadores que possam orientá-lo em pesquisa. As universidades apresentam programas institucionais de iniciação científica para que alunos realizem atividades em pesquisa concomitantemente ao seu curso de graduação. Esses programas podem, inclusive, proporcionar uma bolsa mensal a esses alunos.

Biotec pra Galera - O mercado que relaciona o trabalho de odontologistas com pesquisas genéticas é um mercado amplo ou ainda incipiente? É uma área na qual vale o estudante investir?

Paula Trevilatto - É um mercado ainda incipiente, mas em ampla expansão. Com os avanços na genômica, ou seja, com o sequenciamento dos genes humanos disponibilizado em bancos de dados públicos, os pesquisadores estão a todo vapor tentando identificar mutações ou qualquer alteração na sequência dos genes que possa causar ou predispor a doenças. Sabemos que as doenças bucais, mesmo a cárie e a doença periodontal (inflamação na gengiva que leva à perda dos dentes), têm um componente genético (observado pela concentração dessas doenças em famílias), mas ainda não conhecemos os genes que controlam a suscetibilidade a elas. Assim, é necessário ampliar as pesquisas de identificação de fatores genéticos que estimulem a existência dessas doenças, que são tão frequentes e comprometem a qualidade de vida das pessoas.

Biotec pra Galera - De que maneiras a genética pode ajudar em problemas odontológicos? Você pode dar alguns exemplos?

Paula Trevilatto - Do mesmo modo que é desejável o conhecimento de fatores de risco socioeconômicos, clínicos ou comportamentais relacionados ao aparecimento de doenças, aspectos relativos à predisposição genética também devem ser investigados, para a compreensão, prevenção e possível desenvolvimento de terapias. Conhecer genes que possam predispor a doenças odontológicas pode ajudar a identificar indivíduos de maior risco e interferir precocemente no processo de doença. Também pode-se planejar mais adequadamente o manejo do paciente, o que permite uma terapia mais individualizada e efetiva e um melhor prognóstico da doença.

Biotec pra Galera - A pesquisa que você coordenou na PUC-PR identificou a influência de fatores genéticos na perda de implantes dentais. Pode explicar como foi essa pesquisa? Como vocês perceberam que poderia ser um problema de origem genética?

Paula Trevilatto - A pista de que a perda de implantes dentais apresenta um componente genético é que há pacientes que não “seguram” o implante. Eles perdem recorrentemente. Se um implante é colocado e perdido, esses pacientes apresentam maiores chances de perder novamente. Uma vez que a perda de implantes ocorre por um agravamento do processo inflamatório, suspeitamos que pessoas com variações na sequência de genes que codificam mediadores inflamatórios (compostos produzidos pelas células que regulam as inflamações), como as citocinas (interleucinas), poderiam ser mais predispostas à perda de implantes. E foi assim que começamos a investigar os polimorfismos (variações na sequência de genes), e encontramos, em pacientes com história de múltiplas perdas, a frequência menor da variante do gene da interleucina-1 (IL-1), que diminui a resposta inflamatória nesses pacientes. Desta forma, observamos que o indivíduo apresenta produção reduzida de um mediador anti-inflamatório.

Biotec pra Galera - Existe a possibilidade de um diagnóstico molecular identificar com antecedência indivíduos com maior risco de perder implantes e de evitar isso? Qual a previsão para que algo assim se concretize?

Paula Trevilatto - Sim, em um futuro não muito distante, será possível desenvolver um exame auxiliar na prevenção da perda de implantes, pela avaliação das variações nos genes da resposta individual. Chances maiores do paciente apresentar perdas poderão ser estimadas, o que orientará o cirurgião-dentista a planejar melhor o caso e acompanhar adequadamente o paciente, favorecendo um melhor prognóstico. É claro que há inúmeros genes envolvidos em coordenar o processo de resposta a um implante dental. O completo conhecimento dos genes que produzem mediadores, que protegem ou que aumentam as chances de rejeição, e a identificação das variantes (polimorfismos), que interferem na expressão ou função desses mediadores, são fundamentais para que o diagnóstico molecular possa ser utilizado na avaliação do risco à perda de implantes. Assim, poderemos tomar medidas individuais para pacientes específicos, e de forma mais precisa.

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