Plantas transgênicas: de alimentos a remédios
Você sabia que, além de alimentos, as plantas transgênicas também podem produzir remédios? Pois é... O Biotec pra Galera conversou com o professor Marcelo Menossi, da Unicamp, para entender melhor como funcionam os testes feitos em transgênicos antes de serem liberados para o público e para saber que outros benefícios as plantas modificadas geneticamente podem trazer para nós.




ENTREVISTA - Ficha Técnica: Marcelo Menossi - Formação: Graduação em Biologia na Unicamp, doutorado em Genética de Plantas na Universidade de Barcelona.
Cargos atuais: Professor do departamento de Genética e Evolução do Instituto de Biologia da Unicamp

Biotec pra Galera - Quais tipos de testes são feitos nas plantas transgênicas antes de elas serem cultivadas comercialmente?

Marcelo Menossi - Primeiro é avaliado o impacto ambiental. É verificado se aquela planta pode cruzar com alguma espécie silvestre. Avalia-se se há espécies silvestres que são sexualmente compatíveis com as plantas modificadas, que permitem algum cruzamento. Na possibilidade de se tranferir um transgene para uma espécie silvestre - um gene de resistência a um herbicida (substância que mata ervas daninhas), por exemplo - procura-se avaliar qual seria a conseqüência daquilo para a planta que nasceria do cruzamento. Então primeiro se avalia se há cruzamento, depois se o resultado do cruzamento é uma coisa viável, porque às vezes nem é viável - a semente não germina, por exemplo. Mas vamos supor que seja viável e surja um híbrido resistente à herbicida, por exemplo. Qual é o impacto disso para a lavoura e para o meio ambiente? Isso é avaliado caso a caso. Todas as variáveis são checadas antes da comercialização.



Biotec pra Galera - Você poderia citar um exemplo?

Marcelo Menossi - No caso de plantas resistentes a insetos, é avaliado o efeito sobre os organismos "não-alvo". Por exemplo: você quer atacar uma lagarta que ataca o milho, mas não quer matar as borboletas que estão brincando na plantação e não estão atacando o milho. Todas essas análises são feitas levando em consideração a tecnologia atual, porque o inseticida que é jogado na lavoura de milho convencional não perdoa ninguém, o que estiver embaixo, morre. O que a gente tem visto no caso de plantas resistentes a insetos é que elas só vão fazer mal àquele organismo que se alimenta da planta, é como se o veneno estivesse contido na própria planta. Ele não se difunde pelo ar nem pelos rios. É uma forma de contenção do veneno. Você deixa o veneno pronto só para quem atacar a planta, como se fosse colocar um queijo numa ratoeira.

Biotec pra Galera - Além do impacto ambiental, há outros testes para alimentos?

Marcelo Menossi - Muitos outros. Uma das primeiras coisas que se faz é verificar se a proteína nova, que vai ser produzida pela planta, é digerida pelos seres humanos. Normalmente uma proteína que não é bem digerida no nosso intestino pode causar alergia. Se a proteína do transgênico não for digerida, ela já fica proibida. São feitos vários testes de toxicidade com ratos, em que eles comem muito mais proteína do que há no alimento e depois se verificam os resultados. Alguns testes são feitos em humanos, como para ver se o DNA que a gente come da planta transgênica pode ser transferido para as bactérias que habitam o nosso intestino. Alguns genes têm resistência a antibiótico, e a bactéria poderia ficar resistente ao antibiótico. Mas essa transferência não foi detectada.

Biotec pra Galera - A soja transgênica, que hoje é o alimento modificado mais comercializado, foi aprovada em todos os testes?

Marcelo Menossi - Em absolutamente todos. Nenhum outro alimento que não seja transgênico passa por todos esses testes. Por exemplo: quando introduziram o kiwi aqui no Brasil, ninguém fez nenhuma análise para ver se parcela da população era alérgica ao kiwi. Se tinha alguém, ficou sabendo na hora que comeu.

Biotec pra Galera - Quais são as vantagens da soja transgênica?

Marcelo Menossi - Em vez de usar três ou quatro herbicidas para evitar as ervas daninhas, ou ter que arar o solo para cortá-las - e isso causa erosão e açoreamento de rios - o agricultor pode usar um só herbicida. A soja modificada é resistente ao glifosato (um dos herbicidas), e a outra não - se você aplicar esse herbicida numa planta não modificada ela morre no ato. Economicamente, há uma redução de custo, segundo os agricultores, de cerca de 25%, porque você deixa de usar quatro produtos para usar um só. Já o consumidor contribui para um ambiente mais sadio consumindo a soja transgênica. O glifosato é um dos herbicidas menos tóxicos que existe - em relação ao meio ambiente, às aves e aos humanos. Os outros quatro herbicidas que eram usados são muito mais perigosos.

Biotec pra Galera - Além da soja, que outros alimentos geneticamente modificados já estão sendo comercializados?

Marcelo Menossi - A Europa, que é tão reticente, aprovou o plantio de milho resistente a insetos. Eles viram que a planta reduz muito a quantidade de inseticida e o milho é mais saudável, porque ele tem menos toxina de fungo. O transgene protege contra insetos, então ele não deixa o inseto penetrar a palha para chegar na espiga. O milho convencional deixa, e quando o inseto atravessa, ele abre um buracão enorme por onde entram fungos. E um deles produz uma toxina que é problemática para o fígado. A quantidade dessa toxina no milho convencional é muito maior do que no milho transgênico.

Biotec pra Galera - Há estudos no Brasil para o cultivo de outros alimentos geneticamente modificados?

Marcelo Menossi - Tem uma série deles. Na Embrapa, por exemplo, há o mamão e feijão resistente a vírus, enquanto em outras empresas e institutos de pesquisa já produziram cana resistente a inseto, maracujá resistente a bactéria. Se tudo correr como a gente espera, em dois ou três anos devemos ter o primeiro transgênico 100% brasileiro sendo comercializado.

Biotec pra Galera - E as pesquisas na Unicamp neste sentido, como andam?

Marcelo Menossi - Aqui temos algumas coisas que estão numa fase mais inicial. Temos o milho que vai ser resistente a solo ácido, para ser plantado no cerrado - isso economizaria o calcário que é usado para corrigir os problemas do solo. Na Unicamp estamos mais fortes na produção de fármacos em plantas, que é a produção de insulina e hormônio de crescimento. Essas pesquisas já estão patenteadas e no ano que vem já devem ser produzidas por empresas.

Biotec pra Galera - Como funciona a produção de fármacos em plantas?

Marcelo Menossi - Pegamos os genes que codificam a produção do hormônio de crescimento humano e a insulina, colocamos em plantas de milho e as sementes vão produzir o hormônio de crescimento e a insulina. Isso não é comercializado para as pessoas consumirem direto da planta: o fármaco é extraído e vai ser vendido nas farmácias como é feito hoje com a insulina e o hormônio de crescimento produzidos por bactérias. A produção pelo milho sai mais barata e é mais segura, porque o milho não tem toxinas para os humanos, e a bactéria tem.

*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.

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