Em busca da cura
As pesquisas com células-tronco representam hoje uma grande esperança de cura para pessoas que tenham doenças genéticas (como distrofia muscular, câncer, diabetes e problemas cardíacos) e para quem sofreu acidentes graves, perdendo a mobilidade devido a lesões na medula.

A Câmara dos Deputados aprovou na última quarta-feira (2 de março), o projeto de Lei de Biossegurança, segundo o qual ficam permitidas as pesquisas com células-tronco embrionárias. O projeto segue agora para a sanção do Presidente Lula.

Uma das principais defensoras do projeto e da liberação das pesquisas é a professora Mayana Zatz, que vem se dedicando exaustivamente ao estudo da genética.


ENTREVISTA - Ficha Técnica: Mayana Zatz - Formação: Graduação, mestrado, doutorado e livre-docência em Biologia na USP.
Cargos atuais: Professora titular de genética no Instituto de Biociências da USP, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e presidente da Associação Brasileira de Distrofia Muscular

Biotec pra Galera - Como as células-tronco poderiam ser usadas no tratamento de doenças genéticas?

Mayana Zatz - As pesquisas com células-tronco seriam um aprimoramento da técnica de transplante. É importante que as pessoas entendam que as células-tronco não vão resolver todos os problemas, mas a gente poderia ter um aprimoramento muito grande no que diz respeito a transplantes. Hoje estamos pensando só em transplantar tecidos, mas, no futuro, acho que poderemos até fabricar órgãos. Por exemplo, eu trabalho com doenças neuromusculares, em que há uma degeneração da musculatura. A idéia seria fazer um transplante de células-tronco que pudessem regenerar, fazer uma nova musculatura. Ou então, no caso dos diabéticos, que têm aquelas ilhotas (células do pâncreas) que não fabricam insulina, seria possível transplantar essas células e corrigir o problema. Ou ainda uma pessoa que sofreu uma lesão por hepatite, por exemplo. Seria possível regenerar o fígado.

Biotec pra Galera - Que doenças já poderiam ser tratadas hoje com células-tronco?

Mayana Zatz - Leucemia, sem dúvida. Todas as doenças hematológicas, como anemia congênita e talassemia. Essas doenças todas já têm resultados, com certeza.

Biotec pra Galera - Daria para tratar doenças de degeneração neurológica?

Mayana Zatz - Para Parkinson, em que os neurônios deixam de produzir dopamina, eu acho que seria uma solução. Você poderia introduzir neurônios novos que produziriam a dopamina. Para Alzheimer eu tenho grandes dúvidas, porque na doença o que se tem é um depósito de placas, chamadas placas amilóides, e elas atrapalham os neurônios. Então acho que seria muito mais lógico estabelecer alguma estratégia pra evitar o depósito de placas do que substituir os neurônios.

Biotec pra Galera - Em teoria, seria possível reconstituir os neurônios danificados de uma pessoa? Se ela sofresse um acidente, um derrame ou algo assim, também seria possível regenerar essa parte?

Mayana Zatz - Teoricamente sim, é isso que está se falando. Mas tudo o que está sendo divulgado é experiência terapêutica, não é tratamento. Existe uma diferença grande entre uma coisa e outra. A experiência terapêutica está sendo feita em pessoas, mas não deixa de ser uma experiência.

Biotec pra Galera - E em relação às pessoas que sofrem um acidente, por exemplo, e ficam paraplégicas?

Mayana Zatz - A idéia seria tentar regenerar a medula dessas pessoas. A tentativa que está sendo feita com autotransplante tem resultados muito limitados. Você pega células-tronco da medula da pessoa e injeta no lugar do acidente, para tentar regenerar a lesão da coluna. Os resultados, por enquanto, são muito limitados, por isso estamos brigando pela possibilidade de usar as embrionárias.

Biotec pra Galera - Já tem algum país fazendo pesquisa com células embrionárias?

Mayana Zatz - Pesquisa sim. Tratamento não.

Biotec pra Galera - Quando se fala da diferença entre as células-tronco da medula óssea, do sangue do cordão umbilical e as embrionárias, a gente pode dizer que a da medula óssea é a mais restrita?

Mayana Zatz - A célula da medula óssea é a que tem menor potencial de formar outras células, outros tipos de células. A do cordão umbilical é intermediária e a embrionária é a melhor.

Biotec pra Galera - Tem algum limite de idade do embrião para que suas células sejam usadas?

Mayana Zatz - Sim, as pesquisas foram permitidas com embriões de até 14 dias, porque até aí ele não desenvolveu nenhum resquício de sistema nervoso. A partir daí, também as células já começam a se diferenciar, e queremos as células antes de elas se diferenciarem. Portanto, quanto mais cedo, melhor.

Biotec pra Galera - Como funcionam as células-tronco do sangue do cordão umbilical?

Mayana Zatz - As células extraídas do sangue do cordão umbilical são células-tronco adultas. Elas têm um potencial maior do que as células da medula, mas são adultas e limitadas, não conseguem fabricar todos os tecidos como as embrionárias.

Biotec pra Galera - Sobre a discussão atual de as pessoas congelarem o sangue do seu próprio cordão umbilical. Tem como fazer um autotransplante no futuro se essa pessoa desenvolver alguma doença?

Mayana Zatz - Se for doença genética, não. As células do cordão já têm o mesmo defeito: se você tem um defeito genético, ele está dentro de todas as suas células. Em casos de leucemia está sendo mostrado que é melhor você usar um cordão compatível do que o próprio cordão. Eu acho que, hoje, qualquer promessa que se faz de congelar o sangue do cordão pra uso futuro não tem fundamento científico.

Biotec pra Galera - O que você acha que falta para a sociedade apoiar as pesquisas com células-tronco?

Mayana Zatz - Eu acho que primeiro a sociedade precisa se organizar, porque a Igreja está passando abaixo-assinados dizendo que a pesquisa é aborto, e dizendo para as pessoas não permitirem o uso de células embrionárias, porque isso seria a mesma coisa que permitir o aborto.

Biotec pra Galera - O maior entrave é uma filosofia religiosa?

Mayana Zatz - É o único entrave, na verdade.

Biotec pra Galera - Na sua opinião, o envolvimento de ídolos pop, como Herbert Viana e Marcelo Yuka, ajuda a mobilizar a sociedade?

Mayana Zatz - Sem dúvida.

*Jairo Bouer, 38, é médico psiquiatra e trabalha com saúde e comunicação em TV, rádio, e jornal. Se você tem dúvidas sobre biotecnologia, clique aqui.

Leia também a entrevista com o professor Flávio Finardi Filho.

Leia também a entrevista com a nutricionista Neuza Brunoro.

Leia também a entrevista com a Farmacêutica - Bioquímica Alexandra Zilli Vieira.

Leia também a entrevista com o Engenheiro Agrônomo Francisco Aragão.

Leia também a entrevista com o Professor de Educação Física Alexandre Pagnani.

Leia também a entrevista com o Biólogo Marcelo Menossi.

Leia também a entrevista com a Professora Lucile Floeter-Winter.

Leia também a entrevista com a coordenadora do centro de estudos do Genoma Humano Mayana Zatz.

Leia também a entrevista com a Doutora em Engenharia Agrônoma Waldelice Paiva .

Leia também a entrevista com o professor Esper Kallás, da Unifesp, pesquisador do estudo mundial da vacina do HIV.

Leia também a entrevista com a advogada Patrícia Fukuma.

Leia também a entrevista com o Dr. Jefferson Braga Silva.

Leia também a entrevista com o Dr. Elíseo Joji Sekyia.

Leia também a entrevista com a Coordenadora do curso de biotecnologia da UFSCar Sandra Antonini.

Leia também a entrevista com o pesquisador da Embrapa João Batista Teixeira.

Leia também a entrevista com o Chefe da seção de virologia do Instituto Evandro Chagas Dr. Alexandre Linhares

Leia também a entrevista com o professor e pesquisador José Antonio Visintin

Leia também a entrevista com o Professor Gustavo Goldman

Leia também a entrevista com o Biólogo José Eduardo Levi

Leia também a entrevista com a professora Leila Beltramini

Leia também a entrevista com a professora Marguerite Quoirin

Leia também a entrevista com a doutora Gisela Andreoni

Leia também a entrevista com a professora Sandra Antonini

Leia também a entrevista com a pesquisadora Clara Goedert

Leia também a entrevista com os cientistas Monica e Silvio Duailibi

Leia também a entrevista com a bióloga Juliana Paz



globo pequeno