"Eu queria ser mais do que professora, por isso escolhi a genética e a Agronomia como profissões."
Há mais de 20 anos no mercado, a doutora Alda Lerayer, pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), conta para o Biotec pra Galera como funciona a área de biotecnologia com a questão dos transgênicos. E dá algumas dicas para quem quer trabalhar nessa área.
Biotec pra Galera - Fale um pouco sobre sua experiência profissional e o que mais a motivou a seguir esse caminho.
Alda Lerayer - Desde o colegial, sempre gostei muito de estudar genética. Mas entre a gama de opções desta área, preferi fazer um curso de agronomia, que também tem uma área mais técnica.
Comecei a fazer estágio no Departamento de Genética da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Já no segundo semestre e nos três primeiros anos da faculdade trabalhei com melhoramento de milho doce, aquele enlatado que se adquire no mercado. Na época, a pesquisa era voltada para tornar a variedade de milho mais macia para o consumo. Depois disso, passei a trabalhar com um produtor de rosas da região de Piracicaba, cujo projeto consistia em tornar as flores mais resistentes a doenças.
Só fui começar a trabalhar com genética de microrganismos quando meu orientador de estágio de Iniciação Científica foi fazer uma pós-graduação nos Estados Unidos e passou a bola da minha orientação ao João Lúcio de Azevedo, principal introdutor da genética de microrganismos no Brasil. Até hoje ele continua sendo nosso guru. Desde então, eu não larguei mais a microbiologia. Hoje digo que sou microbiologista, geneticista e "agrônoma de asfalto".
Quando terminei a faculdade fui estagiar no Instituto Biológico da Bahia, onde trabalhei com controle biológico de um fungo causador de doenças que arrasavam as plantações de cacau.
Meu primeiro emprego foi no Instituto de Botânica de São Paulo, onde fiz meu trabalho de mestrado com o fungo Metrhizium anisopliae, que faz o controle de algumas pragas de pastagens e de cana-de-açúcar. Após o mestrado fui convidada a trabalhar no Instituto de Tecnologia de Alimentos de Campinas, onde estou até hoje.
Biotec pra Galera - Como foi o seu doutorado?
Alda - Em 1982, resolvi fazer o chamado doutorado sanduíche: aquele em que você faz metade aqui no Brasil e metade em outro país - no meu caso foi a França. Neste doutorado, eu trabalhei com uma bactéria láctica chamada Lactococcus, utilizada em quase todos os tipos de queijos que a gente tem no Brasil. Essa bactéria é muito sensível a bacteriófagos, que são vírus que impedem que ela se multiplique e produza ácido láctico e, em conseqüência, o leite não coagula para formar a massa do queijo. Esse era o principal problema das indústrias de queijo do mundo todo. Na França, a melhor linhagem dessa bactéria, usada para fazer aquele queijo francês famoso, o camembert, era super sensível a esses bacteriófagos. A gente fez clonagem de genes de resistência a esses vírus nessa bactéria e ela foi imediatamente colocada na linha de produção desses queijos pela indústria. Isso foi feito em 1985.
Biotec pra Galera - Para um jovem que se interessa por essa carreira, quais são os primeiros passos a serem trilhados?
Alda - A primeira coisa a se fazer, para quem gosta dessa área, é delimitar os campos de trabalho dentro da área de ciências biológicas. No meu caso, escolhi fazer um curso que não me limitasse tanto como a graduação em biologia na minha época. Eu queria ser mais do que somente professora, eu gosto de mexer com pesquisas científicas e não ficar restrita a uma sala de aula. Por isso escolhi a genética e a agronomia como profissões. É super importante fazer estágios durante a faculdade, em diferentes áreas do curso para conhecê-las melhor e escolher realmente aquela em que se quer trabalhar.
Depois de passar pela graduação, é importante que o jovem também faça uma pós-graduação. Isso pode ser feito no Brasil, onde hoje não faltam boas universidades e faculdades que ministram esses cursos, reconhecidos internacionalmente. Depois, quem vai a fundo nessa área, normalmente faz especializações no exterior.
Acima de tudo, o candidato que quer seguir esta área, deve estar preparado para estudar a vida inteira, pois os avanços são muito rápidos, principalmente nesses últimos dez anos. A cada dia, são muitas as novas informações, metodologias e equipamentos.
Biotec pra Galera - O Brasil é um dos países que mais cultiva vegetais GMs. Nesse ritmo, como estarão as oportunidades de trabalho nesse segmento nos próximos anos?
Alda - Pelo número de jovens que estão sendo contratados pelas novas empresas de biotecnologia no País, sem dúvida alguma essa é uma área muito promissora.
Só para se ter uma idéia, há pouco tempo uma empresa de biotecnologia contratou os últimos 40 jovens que estavam terminando a pós-graduação em biologia molecular. E ainda há postos abertos. Isto mostra que, na verdade, pelo menos atualmente, faltam profissionais na área.
Biotec pra Galera - Além das aplicações práticas na agricultura, quais são os outros campos beneficiados pela biotecnologia?
Alda - Existem várias outras áreas que trabalham em conjunto com a biotecnologia. Um exemplo prático é a bioinformática, um segmento da informática voltada para o trabalho biotecnológico de seqüenciamento e análise de genes. Com a obrigatoriedade da rotulagem de alimentos geneticamente modificados, abre-se uma grande área de análise, rastreamento e certificação desses alimentos, feitas por laboratórios especializados que necessitam de profissionais competentes em biologia molecular, bioquímica, informática, etc.
Uma área deficitária no Brasil é a de fermentação industrial ou de processos biotecnológicos. Ou seja, aquele cara que otimiza um processo de fermentação microbiana para produção de um determinado produto, por exemplo, uma enzima, vitamina, antibiótico, aminoácido e outros.
Outro trabalho paralelo à biotecnologia é realizado pelos funcionários das indústrias de apoio a este setor. Eles são responsáveis pela produção de insumos para a biotecnologia. Hoje, só no Brasil, esta indústria representa 30 mil postos de trabalho.
Biotec pra Galera - Muito se fala sobre a utilização da biotecnologia na vida atual. Na sua visão, que tipo de conceito de biotecnologia deve ser desmistificado e esclarecido para a população em geral?
Alda - Toda a comoção contra os alimentos transgênicos foi causada porque as notícias ruins sobre esses alimentos chegaram antes do que as matérias que explicam os benefícios dos alimentos geneticamente modificados (GMs). E muita gente normalmente tem medo do que não conhece. Isso não aconteceu apenas com a questão dos transgênicos, mas também com muitas outras.
Uma história que ilustra bem esta questão é a da febre amarela. Na época do surto da doença, os americanos que estavam colonizando a atual cidade de Americana, no Estado de São Paulo, trouxeram sementes de melancia para região. Não demorou muito tempo para que o povo associasse o aparecimento da doença na região às melancias. Só depois da notícia de que Oswaldo Cruz tinha descoberto o vetor da doença (e a vacina) foi amplamente divulgada é que o povo local deixou de perseguir a fruta.
Quanto às contra-indicações dos transgênicos, até o momento nenhum caso de alergia ou de qualquer outro dano à saúde foi registrado pelo consumo dos produtos que estão sendo comercializados e consumidos no mundo há mais de uma década. A biotecnologia trouxe e continua trazendo enormes benefícios à humanidade; eles devem ser informados à população de forma científica e correta.
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