O biólogo e as plantas medicinais
Quem acha que Biologia é um curso simples e com poucas possibilidades de atuação está muito enganado. Um profissional com esta formação pode trabalhar em vários campos, desde o laboratório até a biologia ambiental. É o que explica a bióloga Eliane Romanato Santarém, que trabalha como professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Ela fez mestrado em Botânica com ênfase em Fisiologia Vegetal, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e, em seu doutorado, trabalhou na Universidade de Ohio, Estados Unidos, com biotecnologia e transformação genética da soja.
Biotec pra Galera - Qual é sua área de trabalho?
Eliane Santarém - Trabalho com biotecnologia vegetal, atualmente com mais ênfase em plantas medicinais e seu metabolismo. Nosso enfoque é estudar as principais substâncias bioativas com propriedades medicinais em algumas espécies como Hipérico (uma planta com propriedades antidepressivas) e carqueja (planta que protege as células do fígado). Através do cultivo de tecidos vegetais em laboratório, tentamos alternativas para aumentar a quantidade de produtos de interesse farmacêutico. Estas substâncias são naturalmente produzidas pelas plantas. Além disso, trabalhamos com uma espécie nativa dos Andes, o Vacon, reconhecido por apresentar baixo teor calórico e também por sua propriedade hipoglicemiante (que pode ser bom para diabéticos). Primeiro estudamos a possibilidade de multiplicar as plantas em laboratório. Atingida esta etapa, passamos ao estudo das substâncias de interesse e depois buscamos maneiras de aumentar a produção destes compostos naturais.
Biotec - Há quanto tempo existem pesquisas nesta área?
Eliane - Já existem há bastante tempo. Este é um ramo da biologia que era usado principalmente pela farmácia e química. As plantas medicinais sempre foram usadas empiricamente, sem terem comprovação científica, mas aí surgiu a alopatia e os medicamentos ganharam mais espaço. Só que, como a alopatia é cara e tem muitos efeitos colaterais, ressurgiu este interesse pelas plantas medicinais. Várias áreas começaram a se interessar, existem pesquisas desde o início do século passado. Mas foi só nos últimos 25 anos que houve uma intensificação das pesquisas na busca uma comprovação científica de como as plantas agem nas enfermidades.
Biotec - Já há produtos dessas pesquisas no mercado?
Eliane - Sim. Na década de 80 houve um grande desenvolvimento de aplicações de técnicas biotecnológicas na produção de substâncias obtidas de plantas. Algumas substâncias, que normalmente são produzidas em baixa quantidade pela planta, como um sistema de defesa, foram isoladas por cientistas. A abordagem da ciência para estas plantas é tentar alternativas para aumentar a produção de substâncias importantes. E a biotecnologia é usada para promover a produção destas substâncias. Já se obteve sucesso com compostos que têm atividades contra o câncer e também sedativas (como a morfina e substâncias equivalentes). Cientistas conseguiram produzir estas moléculas em laboratório a partir de células vegetais. A partir daí, foi possível aplicar esta tecnologia em outras espécies. Estes estudos tiveram mais atenção que outros, por se tratar de uma grande descoberta para a humanidade.
Biotec - Como é o mercado de trabalho na área de biologia? Há muitas possibilidades de atuação?
Eliane - O biólogo tem uma formação básica muito ampla e, por isso, pode ter muitas áreas de atuação, do laboratório à biologia ambiental. Dentro da biotecnologia o biólogo também tem muitas possibilidades de atuação - botânica, animal, fisiologia, genética - é um profissional especial, pois tem visão de todo o funcionamento dos organismos. Mas é claro que não dá pra ficar só na formação básica, é preciso fazer uma especialização, para focar uma área. Um biólogo pode optar por trabalhar na universidade (como professor e pesquisador), pode ter sua própria empresa de biotecnologia (trabalhando na produção de plantas e compostos de interesse) e também na prestação de serviços para empresas na área de análise de compostos de interesse, análise de DNA, produtos transgênicos, área de genética, etc.
Biotec - Nesta área há espaço para estudantes e profissionais também de outras áreas?
Eliane - Uma coisa interessante da biotecnologia é que ela congrega profissionais de várias áreas. Há profissionais de química, farmácia, engenharia, biologia e outros trabalhando em conjunto. Nós temos uma boa circulação de estudantes no laboratório, há intercâmbio de várias áreas. Na minha equipe, temos cerca de oito estudantes. Há bastante espaço para os jovens nesta área.
Saiba mais sobre cursos e faculdades de biotecnologia
Leia a entrevista com o Pesquisador Jânio Santurio
Leia a entrevista com o engenheiro da computação Alexandre Corrêa Barbosa
Leia a entrevista com a Nutricionista Neuza Brunoro
Leia a entrevista com o Advogado Gabriel di Blasi
Leia a entrevista com a engenheira agrônoma Luciana Di Ciero
Leia também a entrevista com o Engenheiro Agrônomo Ruy Caldas
Leia a entrevista com a advogada Patrícia Fukuma
Leia também a entrevista com o Médico Veterinário Vasco Azevedo
Leia também a entrevista com a Doutora Alda Lerayer
Leia também a entrevista com o biólogo Pedro de Oliva Neto
Leia também a entrevista com o engenheiro de alimentos Edson Watanabe
Leia também a entrevista com Jânio Morais Santurio, professor e pesquisador do departamento de microbiologia da Universidade Federal de Santa Maria
Leia também a entrevista com Julieta Ueta, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP)