Veterinária: da clonagem à vacina gênica

Se você acha que veterinário é simplesmente um "médico" de animais, que tal dar uma ampliada nos seus conceitos? Hoje, os veterinários possuem uma ampla gama de atividades que vão muito além da clínica e de cirurgia de animais. Eles fazem também pesquisa de ponta, seja desenvolvendo novas vacinas contra fungos e bactérias ou dando os primeiros passos na área de clonagem de animais. Jânio Morais Santurio, professor e pesquisador do departamento de microbiologia da Universidade Federal de Santa Maria, é um desses veterinários que nunca castrou um gatinho. Ele trabalha com fungos.

Biotec pra Galera - Temos aquela imagem de que veterinário apenas cuida de animais, mas não é só isso, correto?

Jânio - A veterinária é uma profissão multifacetada. Tem como princípio básico cuidar de animais, mas tem também diversas atividades paralelas, como inspeção e controle de qualidade de alimentos, controle sanitário de rebanhos, de portos ou frigoríficos. E hoje também na parte de pesquisa de reprodução animal, que envolve a biotecnologia. Por exemplo, do pessoal que trabalha no Cenargen (Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia), da Embrapa, com clonagem de animais, a maioria é de veterinários. Também trabalhamos na área de microbiologia - eu, por exemplo, trabalho na área de fungos, minha especialização é em micologia. E não é algo novo. Trabalho há 25 anos com isso.

Biotec pra Galera - O que se faz nessa área que você trabalha?

Jânio - Basicamente pesquisa sobre o efeito que os fungos causam nas pessoas, animais ou plantas. Identificamos e estudamos os venenos que eles produzem. Pesquisamos, por exemplo, alimentos à procura de micotoxinas (toxinas causadas por esses fungos) que causam problemas tanto na saúde humana como na animal. Nós, por exemplo, desenvolvemos uma vacina - da qual já temos a patente registrada - contra um fungo que ataca cavalos no Pantanal.

Biotec pra Galera - De que maneira a biotecnologia é aplicada nessas pesquisas veterinárias?
Que evoluções a biotecnologia trouxe para essas áreas?

Jânio - As evoluções são mais marcantes na área de reprodução animal. Foram os veterinários que deram os primeiros passos na biotecnologia. Eles, junto com os biólogos, foram os primeiros a fazer clones - aqui no Brasil, inclusive. Foram os primeiros a desenvolver essa tecnologia para clonar animais. Partir óvulos, dividir embriões, tudo isso é biotecnologia. Também a técnica para tipagem gênica, que usa biologia molecular em larga escala. Temos também a produção de vacinas a partir de tecnologia gênica, com a inserção de parte de DNA em plasmídeos e bactérias. Daí surgem as vacinas gênicas (ou de DNA), mais eficientes que as convencionais.

Biotec pra Galera - Quais animais já foram clonados no Brasil?

Jânio - Vários bovinos foram clonados, como a vaca Vitória, que ficou bem conhecida. Quem mais tem feito isso são os pesquisadores da Embrapa, em Brasília. Eles têm trabalhado muito firme nisso. Na área animal os estudos estão muito avançados. Assim como na área de vacinas. Hoje já fazemos clone de genes para reproduzir insulina em laboratório. Dentro da minha área, por exemplo, trabalha-se muito com a melhoria da produção de determinadas enzimas por fungos. Introduzimos genes em determinados fungos para produzir enzimas ou substâncias químicas, como ácido cítrico, para a indústria. Como a produção de metabólicos secundários, através de fermentação e de engenharia genética para a produção de antibióticos e substâncias anti-rejeição de órgãos.

Biotec pra Galera - E quais são as suas pesquisas com biotecnologia?

Jânio - Nós trabalhamos com biologia molecular para detecção e tipificação de fungos. Anteriormente - na verdade, isso ainda se usa hoje -, para identificarmos um fungo, era preciso fazer uma cultura. Observando o fungo no microscópio tínhamos que dizer, através de chaves de identificação, como ele era. Há toda uma metodologia para identificar suas estruturas, seu formato, sua cor, etc. Identificadas essas características, é preciso fazer uma chave de classificação para se chegar até a espécie. Isso dá muita margem para erros - e, às vezes, erros bem grosseiros. Agora, com a biotecnologia, extraímos o DNA do fungo e, com enzimas de restrição, cortamos uma parte do DNA. Com esse pedaço fazemos o que chamamos de PCR (do inglês, Polymerase Chain Reaction - reação de polimerase em cadeia), que é uma multiplicação dessa parte do DNA. Depois é feita a comparação de um padrão da espécie fúngica. Com isso determinamos a espécie com absoluta certeza. Antes era preciso ter superespecialistas em morfologia, em classificação, para poder fazer essa identificação. Hoje qualquer laboratório no mundo que tenha biotecnologia pode fazer essa identificação em questão de horas.

Biotec pra Galera - E qual a importância dessa evolução?

Jânio - O que é muito importante para determinados tipos de diagnósticos onde é necessária uma identificação rápida e precisa para a produção de drogas e antibióticos específicos. Além de serem milhares de espécies, há inclusive a modificação deles, o que torna os meios convencionais ainda mais complexos. Por isso, esse estudo de biologia molecular é muito importante, pois cada vez mais estamos descobrindo que determinados fungos que causam alguns problemas não eram daquela espécie que achávamos que fossem. Hoje estamos tirando essas dúvidas e melhorando o diagnóstico, tanto em animais quanto em humanos e plantas.

Biotec pra Galera - E isso já é feito em grande escala? As clínicas fazem isso?

Jânio - Para nós, nos países em desenvolvimento, ainda é uma ferramenta cara. Mas em laboratórios bons já se faz isso como rotina. Hoje, muitas indústrias agropecuárias já fazem esses exames em tempo real. Da carcaça de um animal, por exemplo, isola-se uma bactéria onde há suspeita que seja salmonela. Você faz o PCR com uma máquina automática. Elas fazem isso, te dizem se é salmonela, o tipo e a espécie, em questão de horas. Coloca à tardinha e pela manhã já tem o resultado. Parte dos agroindústrias brasileira já faz isso, principalmente a de frango e a suína. Isso é uma ferramenta muito importante para os negócios. A biotecnologia dentro da área de classificação de fungos e de identificação de alguns subtipos de fungos e bactérias é fundamental hoje. Já está virando rotina na maioria dos laboratórios.

Biotec pra Galera - A tecnologia é cara?

Jânio - Ela era cara, mas com o tempo vai se tornando mais acessível. O problema hoje é que temos pouco pessoal especializado. É necessária muita precisão nesse trabalho. Por isso precisamos de profissionais de que entendam profundamente essa área. E eles ainda estão em falta.

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