José Eduardo Krieger - Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor

A idéia de formar-se em Medicina e não atender a pacientes no dia-a-dia certamente soa estranho para a maior parte dos que entram na faculdade. Mas foi essa via não programada que levou o cardiologista José Eduardo Krieger, depois de anos de estudos nos EUA, a participar da criação do Laboratório de Pesquisas Genéticas do Instituto do Coração (InCor), no Hospital das Clínicas. Em entrevista ao Biotec pra Galera, Krieger disse que, apesar de não clinicar, lida diariamente com questões médicas, a exemplo do uso de células embrionárias em pesquisas. "O conhecimento advindo dos estudos com a célula embrionária pode permitir que ela não precise ser usada no futuro. Se aprendermos a receita de como ela se diferencia, talvez possamos usar a informação para modificar uma célula adulta do próprio paciente". Confira a entrevista na íntegra!

Biotec pra Galera - Em que momento você optou por desenvolver pesquisas cardiovasculares com ferramentas da biologia molecular em vez de clinicar?

José Eduardo Krieger - Foi uma via não programada. As coisas vão acontecendo e a gente aproveita as oportunidades. Fiz medicina em Ribeirão Preto, onde o componente de pesquisa é muito enfatizado. Ao longo do curso, embora tivesse interesse na parte clínica, comecei a me interessar também pela carreira acadêmica, fiz iniciação científica com bolsa da Fapesp e passei a identificar áreas de que gostava, como a Cardiologia. Antes de entrar na residência, surgiu a oportunidade de fazer uma pós em Fisiologia no Medical College of Wiscosin, nos Estados Unidos. Naquela época, estava se tornando clara a importância do uso de ferramentas de biologia molecular, mas, com forte formação em fisiologia, eu ainda não estava interessado. O que eu queria era estudar o animal inteiro com a linha de pesquisa que usávamos em Wiscosin e implantar isso no Brasil. Mas, então, novamente, mudou tudo. Fui fazer pós-doutorado em Biologia Molecular na escola de medicina de Harvard. Achava que ficaria lá um ano, acabei ficando três, e o treinamento clínico ficou na vontade. Queria fazer, mas não podia ser aluno para sempre. Tinha interesse em implantar no Brasil o que tinha aprendido lá fora.

Biotec pra Galera - E quando voltou para o Brasil você foi direto para o Incor? Já tinha abandonado a idéia de fazer clínica?

José Eduardo Krieger - Meu plano inicial era voltar para Ribeirão Preto. Mas, de novo, a idéia de fazer uma carreira de investigação foi impulsionada quando me transferi para o Incor, que faz pesquisa, assistência e ensino em cardiologia. Aqui, tive a oportunidade de desenvolver um laboratório de genética e biologia molecular para viabilizar pesquisas e disponibilizar essas novas estratégias de pesquisa para outras áreas do Incor. Só no Incor são 500 leitos para a Cardiologia. Então, imagine a variedade de pesquisas que podem ser desenvolvidas combinadas com a atividade assistencial em um ciclo virtuoso. Eu estava no lugar certo, na hora certa. Com isso, tive oportunidades únicas. Não faço assistência diretamente, mas lido diariamente com questões médicas. Gostaria de clinicar, mas a vontade teve de ser disfarçada em outras atividades relacionadas. Poucos médicos pensam em não clinicar, mas hoje encontramos todo um amplo espectro de especialidades que são necessárias para, dentro de uma base multidisciplinar, você poder abordar problemas complexos como as doenças cardiovasculares. Em nosso grupo, por exemplo, várias pessoas fazem tanto clínica quanto pesquisa sendo que uns se especializaram mais em um aspecto do que no outro, sendo todos fundamentais para o processo.

Biotec pra Galera - Como era a pesquisa de biologia molecular em cardiologia quando você voltou ao país?

José Eduardo Krieger - Era muito incipiente. Especialmente com essa visão integrada, multidisciplinar, era quase inexistente. Em outras áreas, a biologia molecular já vinha sendo mais bem desenvolvida, como em oncologia e na endocrinologia, mas, na cardiologia, ainda era rudimentar.

Biotec pra Galera - E que tipo de pesquisas vocês desenvolvem atualmente nessa área no Instituto?

José Eduardo Krieger - Há duas grandes linhas em que a gente aposta aqui no Incor, porque a medicina, no futuro, deve se desenvolver em duas grandes áreas. Por um lado, há a medicina preditiva, que trata de conhecer cada vez mais os processos normais, fisiológicos e fisiopatológicos de doenças, para que possamos dispor no futuro de biomarcadores informativos que nos permitam avaliar melhor o risco de um indivíduo vir a desenvolver uma doença e como melhor tratá-la. Trata-se de escolher pessoas jovens, que não tenham doenças, e identificar quais podem desenvolver alguma enfermidade. Temos interesse, por exemplo, no que determina a hipertensão arterial, e já chegamos a regiões específicas do cromossomo para saber o que pode estar errado nessas áreas que contêm um número finito de genes que deverão ser investigados. Por outro lado, haverá sempre situações em que a doença se instalará e será necessário tratá-la. Neste sentido, será importante reparar o órgão adulto, especialmente o coração, que tem baixa capacidade regenerativa. O desenvolvimento destas novas estratégias utilizando terapias gênicas e celulares é que denominamos de medicina reparativa. Até pouco tempo atrás, pensava-se que não existia a possibilidade de reparação para sistema nervoso e coração. Mas existe uma certa plasticidade e hoje procuramos explorar esta novo espaço que está abrindo perspectivas interessantes para que, no futuro, estes órgãos possam ser reparados. É aí que entram as chamadas células-tronco.

Biotec pra Galera - Como são as pesquisas com célula-tronco no Incor?

José Eduardo Krieger - Trabalhamos com o conceito de curinga. Um dos caminhos é usar uma célula do próprio organismo e modificá-la para que ela própria seja o agente terapêutico. Ou seja, modificamos uma célula do ratinho para produzir um fator angiogênico, que estimulará a formação de novos vasos, e a célula é usada como agente terapêutico. O outro caminho é usar uma célula curinga adulta. Estamos trabalhando com células mesenquimais, retiradas do tecido gorduroso, que sabemos que podem dar origem a células que estão incluídas no sistema cardiovascular e que procuramos substituir. Estamos tentando ver se essa célula também pode ser usada como agente terapêutico. E, finalmente, há a célula curinga ideal, a embrionária, que é a única que pode dar origem a todas as células. A embrionária não é usada necessariamente para fazer terapia, mas para entender como pode dar origem a células que eu tenha interesse em usar na reparação de um tecido adulto, como o coração. Esse ponto nunca é enfatizado. Talvez o conhecimento advindo desses estudos possa permitir que a célula embrionária não precise ser usada no futuro, pois se aprendermos a receita de como ela se diferencia, talvez possamos utilizar esta informação para modificar uma célula adulta do próprio paciente.

Biotec pra Galera - O Brasil vive um impasse na pesquisa com células-tronco embrionárias humanas desde que o artigo 5ª da Lei de Biossegurança, que permite essas pesquisas, foi contestado pela Procuradoria da Geral da República. O que o país está perdendo nesses últimos anos?

José Eduardo Krieger - O Brasil, como vários outros países, pelo menos está regulamentando, e isso é importante. Mas, infelizmente, isso está sendo contestado, o que pode trazer uma situação de anormalidade. Eu, como pesquisador, quero trabalhar com células-tronco com regulamentação. Conseguiu-se um avanço grande na determinação de como podemos obter estas células, que podem ser aproveitadas de embriões que reflete um acordo social e que permite o investigador trabalhar nesta área eticamente dentro da sociedade. Infelizmente, isso está sendo contestado, o que traz insegurança ao sistema. É importante que exista o debate, mas é importante também que possamos avançar. O que está acontecendo é um retrocesso. Daqui a pouco, estaremos determinando quando a vida começa e quando termina. A sociedade evolui baseada em demandas. Se estivéssemos em 1958, e eu tivesse que retirar o coração de um paciente em coma, eu iria preso. Nos anos 60, depois que foi feito o primeiro transplante, criou-se uma nova perspectiva de salvar vidas fazendo transplante e, para isso, o órgão é retirado do doador batendo. Só que foi necessário regulamentar o procedimento. Criou-se um conceito de morte, e daí definiu-se a morte cerebral. A questão fundamental era essa: eu poderia ter o paciente em coma, o corpo inteiro funcionando, exceto o sistema nervoso. A sociedade aceitou. A mesma coisa deverá acontecer agora. Os cientistas descrevem cada vez com mais detalhes o que acontece desde o momento em que o óvulo encontra o espermatozóide e em que momento a sociedade aceita que as células sejam retiradas para finalidade de estudo ou para a terapia.

Biotec pra Galera - A genética pode ajudar uma pessoa a descobrir se tem chances de vir a ter doenças cardiovasculares? Um dia poderemos prever um infarto?

José Eduardo Krieger - Essa é a idéia. Tem um exemplo interessante. Não há dúvida de que o cigarro esteja associado ao câncer, mas temos dificuldades de fazer as pessoas deixarem de fumar. É como bingo: as pessoas sabem que perdem, mas não usam a lógica. Hoje, eu chego pro meu paciente e digo "Você fuma, tem uma chance maior de ter câncer". Daí ele conhece alguém que fuma e não tem câncer, e acha que com ele também será assim. Eu preciso ter algo para dizer: "Você, se fumar, terá 90% de chance de ter câncer". Isso eu não tenho hoje. O mesmo com colesterol. A manifestação dessas doenças é lenta, aparece lá na frente, e precisaremos ter elementos objetivos para identificar, na população, quem tem maior ou menor risco de desenvolver a doença e, aí sim, utilizar estas informações para fazer intervenções no indivíduo com maior nível de certeza.

Biotec pra Galera - Alguém que queira trabalhar com biologia molecular em cardiologia tem boas opções de cursos no Brasil?

José Eduardo Krieger - Sim, acredito que sim. No passado, precisávamos sair para aprender o arroz com feijão. Acredito que hoje só é necessário e desejável sair do país para comer o filé mignon. Essa é a diferença fundamental; o convívio com ambiente externo é fundamental. É uma diferença de escala o que se faz nos EUA, Europa e alguns países asiáticos. A escala como as coisas são feitas nos EUA é muito grande, ninguém tem. Dá para fazer a formação inicial no Brasil e completar isso lá fora. O nosso principal problema é como integrar a plataforma multidisciplinar - necessária para a solução dos grandes problemas de saúde pública, como as doenças cardiovasculares - aos nossos currículos. As universidades têm de começar a atender essas demandas que não estão dentro das "caixinhas" tradicionais dos nossos cursos clássicos, medicina, biologia, direito etc. Este processo de mudança já começou, mas é incipiente e restrito, precisa ser estimulado e ampliado. Na Universidade de São Paulo (USP) já existem algumas iniciativas, como o curso de Ciências Moleculares, no qual alunos de diversas áreas podem, eventualmente, depois de 1ou 2 anos de cursos gerais, "montar um currículo" único direcionado à formação de um profissional com características muito específicas e que o mercado necessita para tornar o país competitivo em várias áreas. O caminho tradicional, como eu fiz, fazendo medicina, depois fisiologia e por fim biologia molecular, talvez não seja o mais eficiente. Hoje, USP, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) deveriam tirar proveito de seu papel na sociedade brasileira e serem pioneiras na formação dos indivíduos necessários para a sociedade se desenvolver -- dentro da complexidade em que vivemos e que nem sempre será atendida pelos currículos tradicionais. A USP já tem cursos de Ciências Moleculares para o aluno que ficou no topo do vestibular. Ele pode sair de onde ele entrou, seja Direito, Medicina ou Engenharia e, depois de uma formação sólida geral, ele pode se especializar com o auxílio de um orientador em uma das diversas áreas do saber necessária para resolver problemas específicos. Assim, as universidades têm de aprender a suprir de maneira criativa essa nova demanda da sociedade.

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