Imagine se fosse possível impedir o avanço de doenças como a malária e a dengue sem a necessidade de exterminar mosquitos transmissores; simplesmente mexendo nos genes dos bichinhos para torná-los incapazes de infectar o homem. Pois essa proposta, que pode salvar a vida de milhares de pessoas, é a pesquisa que Margareth Capurro vem desenvolvendo há dez anos, primeiro na Universidade da Califórnia (EUA) e atualmente na Universidade de São Paulo. Professora-doutora do departamento de parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, Margareth conversou com o Biotec pra Galera sobre o início de seus trabalhos em pesquisa e o mercado para quem quer seguir carreira na área.
Biotec pra Galera - Como você começou a trabalhar em pesquisa?
Margareth Capurro - Eu fiz mestrado e doutorado em bioquímica e biologia molecular, mas meu caminho não foi o mais usual. Comecei mais velha, casada, já com filhos. Fiz graduação em ciências biológicas na Unisa e depois fui dar aula no Estado. Daí casei, tive filhos, e foi então que resolvi voltar a fazer alguma coisa. Eu já estava com uns 28 quando entrei no mestrado de bioquímica da USP, como bolsista, pela Fapesp, em 1985. Normalmente, as pessoas entram no mestrado assim que terminam a graduação, porque é um caminho mais fácil. Depois que você pára, pode ser mais difícil voltar.
Biotec pra Galera - Por que mais difícil?
Margareth - Por exemplo, agora tem uma concorrência maior, está mais fechado. Hoje em dia formam-se muito mais mestres do que quando eu entrei. Os programas eram muito maiores do que hoje. Na minha época, a gente podia ficar no programa por sete anos, com bolsa por cinco. Hoje, você até pode ficar no programa sete anos, mas o limite da bolsa é de quatro anos.
Biotec pra Galera - E qual a conseqüência disso para a formação do pesquisador?
Margareth - O que eu sinto é que se perde maturidade na formação. Hoje o aluno se forma muito rápido, e não dá tempo de ele ficar maduro o suficiente para defender o doutorado, para ser chefe de laboratório. Eu não sou a favor dessa pressa para formar um doutor. Se ele se dedica por mais tempo, tem mais condições de ser chefe de pesquisa ao terminar o doutorado.
Biotec pra Galera - Você se tornou pesquisadora na USP logo após terminar o doutorado?
Margareth - Não, eu estudei mais. Terminei o doutorado em 1997, fiquei até 2001 no exterior, fazendo pós-doc na Universidade da Califórnia. Voltei para o Brasil, comecei a prestar concurso para professor. Eu fiquei quatro anos na Universidade da Califórnia, e lá é assim: defendeu o doutorado, submete o currículo às empresas. O aluno opta: ou faz pós-doc, ou vai para uma empresa. Mas lá a gama de empresas é muito grande. Aqui as empresas ainda não estão contratando como acho que deveriam, pelo menos no caso de biologistas. Os biologistas têm uma inserção mais difícil em indústrias como a Roche, que tem desenvolvimento de pesquisa, mas que prefere farmacêuticos. O caminho mais comum é seguir para a pesquisa no setor público.
Biotec pra Galera - O setor público é o mais recomendado para quem segue a sua área?
Margareth - O mais recomendado é ser sério. É uma área em que se trabalha muito. Não se pode dizer que um pesquisador ganhe mal perto do salário do Brasil, embora não seja algo como um salário de diretor de empresa. O caso é que, quando a gente tem um resultado bom, a gente vibra, não importa o que esteja acontecendo do lado de fora. O que acontece é que a pesquisa está no seu sangue, você faz porque gosta.
Biotec pra Galera - O trabalho que você desenvolve hoje na USP, de pesquisas com mosquitos transgênicos, tem a ver com suas pesquisas de mestrado e doutorado?
Margareth - No mestrado e no doutorado estudei a mosca doméstica. A idéia era entender o inseto pelo inseto, a parte de bioquímica e a biologia molecular. Daí, quando fui para o exterior, comecei a trabalhar com a possibilidade de insetos transgênicos, com a aplicação de poder controlar a transmissão de doenças.
Biotec pra Galera - Como é essa pesquisa hoje?
Margareth - A gente desenvolve moléculas dentro do mosquito que possam matar os parasitas e os vírus. Se você tem, por exemplo, a linhagem transgênica que mate o parasita da malária, a idéia é que possa usar essa linhagem para ser introduzida na natureza e evitar a transmissão. Do laboratório ao campo existe um longo produto; ainda tem muito chão pela frente. Pesquisamos isso no caso da malária e da dengue. Foi anunciado há um tempo que alguém de Belo Horizonte já tinha um mosquito transgênico, mas na verdade era um modelo de malária de galinha. Para malária humana, que é o que pesquisamos, não tem em lugar nenhum do mundo. Para a dengue humana existe um modelo no Colorado (EUA) que serve para eliminar um tipo de vírus, mas não todos os quatro.
Biotec pra Galera - Em geral, como é a pesquisa no Brasil, na comparação com as de países mais desenvolvidos?
Margareth - De dois anos para cá, o Brasil passou a ser considerado, dentre os países em desenvolvimento, um exemplo de país que tem ciência de primeiro mundo. A gente não sabe se fica contente ou triste. Por um lado, é ótimo esse reconhecimento. Por outro, agora a gente não pode entrar em programas de incentivo como o TDR [Special Programme for Research and Training in Tropical Diseases; programa especial para pesquisa e treinamento em doenças tropicais] e os da OMS [Organização Mundial de Saúde], essas organizações que incentivam países em desenvolvimento, em que esses países não competem com cientistas de primeiro mundo. Eles criam esses programas especiais para tentar equilibrar a distribuição dos incentivos. Antes, a gente competia com África, Argentina, Índia. Agora, o Brasil compete com Harvard. É um sinal de que estamos bem, mas de que, mais do que nunca, precisamos correr atrás.
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