João Bosco Pesquero

Durante a faculdade de Química, João Bosco Pesquero costumava dizer que queria descobrir os segredos do universo. Mais para frente, ele percebeu que poderia fazer isso descobrindo os segredos da Biologia e aplicando o conhecimento na Medicina. Por isso, após a faculdade, fez pós-graduação em Ciências Biológicas e Medicina Molecular.

Hoje, Pesquero é pesquisador e diretor do Centro de Desenvolvimento de Modelos Experimentais para Medicina e Biologia (Cedeme) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em entrevista ao Biotec pra Galera, o bioquímico conta como realizou seu sonho fazendo experiências genéticas que podem dar novos rumos a tratamentos medicinais, segundo ele, um ramo profissional muito promissor no país. Confira a entrevista na íntegra!

Biotec pra Galera - Você é formado em Química, mas depois fez mestrado e doutorado em ciências biológicas e medicina molecular. Por que e em que momento você decidiu ir para o lado da biologia? Isso é comum: o estudante fazer um bacharelado e depois se especializar em outra área?

João Bosco Pesquero - Realmente minha formação foi numa área exata, a Química. Durante o curso, eu e alguns colegas costumávamos dizer que queríamos descobrir os segredos do universo. Mas depois eu descobri que a Medicina era uma área extremamente importante e que, a meu ver, estava muito atrasada e precisava de profissionais de outros setores trabalhando nela, para um maior desenvolvimento. Então eu associei as duas coisas que tanto gostava: descobrir os segredos do universo da Biologia e associá-la à Medicina. Isto não é muito comum não e, durante muitos anos, eu me senti muito perdido, pois foram necessários vários anos de "biologização" para poder atuar na nova área escolhida. Enquanto meus amigos estavam "trabalhando" eu estava "estudando" e isso causa um certo medo.

Biotec pra Galera - Qual é a área de atuação de um bioquímico? Qual a relação com genética e biotecnologia?

Pesquero - O bioquímico tem um campo de ação bastante amplo, podendo trabalhar em indústrias, laboratórios de pesquisa e universidades. Dentro da bioquímica situa-se a biologia molecular, que tem toda relação com a genética e a biotecnologia. Na biologia molecular aprendemos como trabalhar com o material genético, ou seja, o DNA, molécula que, hoje, é a base da nova biotecnologia.

Biotec pra Galera - Você cursou pós-doutorado em biologia e medicina molecular em instituições alemãs. O que um pesquisador brasileiro precisa fazer para conseguir fazer pós-graduação em outro país?

Pesquero - É preciso ter contato com algum pesquisador dessas instituições. No meu caso, conheci um pesquisador alemão quando ainda era estudante de doutorado. Ele me foi apresentado pelo Prof. Antonio Paiva, fundador do Departamento de Biofísica da Unifesp e meu co-orientador. Eu gostei da linha de pesquisa que o professor alemão desenvolvia e ele me convidou para ir para o seu país. Foram mais de quatro anos desenvolvendo pesquisa de ponta em Heidelberg e Berlim.

Biotec pra Galera - Quais são suas pesquisas atuais na área de biotecnologia? Qual o objetivo e no que podem ajudar?

Pesquero - No momento estamos desenvolvendo métodos para expressão de proteínas recombinantes (proteína que foi codificada a partir de um gene que sofreu recombinação) em diferentes sistemas. No Brasil existe uma necessidade muito grande de produção dessas moléculas, que podem ser usadas para uma gama de aplicações muito grande, só que elas custam fortunas. Posso dar um exemplo na área médica: muitos tratamentos de doenças genéticas são feitos a partir da aplicação de proteínas recombinantes no pacientes, proteínas essas que os pacientes não produzem porque eles têm um defeito genético. Hoje compramos essas proteínas de outros países a custos altíssimos. A idéia é fazermos aqui essas proteínas utilizando sistemas como células in vitro ou leveduras e baratear os tratamentos e proporcionar acesso a todos que necessitam. Outras aplicações seriam proteínas usadas na pecuária, como por exemplo, o hormônio folículo estimulante (para estimular a ovulação). O Brasil, por ser um país muito competitivo nessa área, necessita desse hormônio para melhorar sua produção. Além disso, uma gama de proteínas usadas em laboratórios de pesquisa, que hoje importamos todas.

Biotec pra Galera - Você coordenou recentemente o I Simpósio Brasileiro de Tecnologia Transgênica, em março, em São Paulo. Quais impressões que se pode tirar do evento e da situação da pesquisa de transgenia no país? É um mercado de trabalho promissor?

Pesquero - O I Simpósio Brasileiro de Tecnologia Transgênica foi um sucesso. Tivemos vários pesquisadores expoentes na área, tanto nacionais como estrangeiros. Tivemos a grata satisfação de ter a presença do Nobel de Medicina e Fisiologia do ano passado, o Prof. Oliver Smithies, e também a presença do Dr. Luis Montoliu, presidente da Sociedade Internacional de Tecnologia Transgênica. Tivemos também uma grande presença de alunos, pesquisadores, professores e técnicos brasileiros no evento, com um total de mais de 300 pessoas. Os assuntos discutidos no evento mostram que essa tecnologia vai se expandir no Brasil, que certamente é um mercado muito promissor, gerador de muitos empregos e divisas para o Brasil. Por tudo isso, precisamos cada vez mais de novos profissionais.

Saiba mais sobre cursos e faculdades de biotecnologia

Leia a entrevista com o Pesquisador Jânio Santurio

Leia a entrevista com a Nutricionista Neuza Brunoro

Leia a entrevista com o Advogado Gabriel di Blasi

Leia a entrevista com a engenheira agrônoma Luciana Di Ciero

Leia a entrevista com a advogada Patrícia Fukuma

Leia também a entrevista com a bióloga Eliane Romanato Santarém

Leia também a entrevista com o Médico Veterinário Vasco Azevedo

Leia também a entrevista com o biólogo Pedro de Oliva Neto

Leia também a entrevista com o engenheiro de alimentos Edson Watanabe

Leia também a entrevista com Julieta Ueta, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP)

Leia também a entrevista com José Maria da Silveira engenheiro agrônomo especializado em economia

Leia também a entrevista com Giovani Vianna engenheiro agrônomo

Leia também a entrevista com o professor Carlos Termignoni

Leia também a entrevista com a Professora-doutora Margareth Capurro

Leia também a entrevista com José Eduardo Krieger - Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor

globo pequeno