Quatro décadas de agronomia
O professor Ruy de Araújo Caldas está comemorando 40 anos de experiência no mercado de agronomia. Formado em 1964, pela Escola Superior de Agricultura de Viçosa (MG), ele acompanhou a evolução do setor nas últimas quatro décadas e acredita que a biotecnologia vai reduzir a demanda por recursos naturais e ajudar a jogar menos defensivos agrícolas no meio ambiente. Atualmente Caldas é diretor e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Genômicas e Biotecnologia da Universidade Católica de Brasília (UCB). Leia nesta entrevista ao Biotec pra Galera o que ele pensa sobre a profissão de Engenheiro Agrônomo.
Biotec pra Galera - Professor Caldas, o sr. tem uma experiência de 40 anos de mercado. Como o sr. avalia a evolução da profissão e dos profissionais de agronomia nesse período?
Prof. Ruy Caldas - A profissão de agronomia sofreu profundas alterações nestes últimos 40 anos em vários aspectos. Primeiro, o Engenheiro Agrônomo tinha uma formação muito voltada nas atividades agropecuárias, desde a fase produtiva, dentro da porteira, até as questões ligada à economia agrícola. Depois veio a fase de especializações em engenharia agrícola, zootecnia, tecnologia dos alimentos e fitotecnia. E o agrônomo limitou a sua atuação, principalmente na atividade de produção de alimentos de origem vegetal.
Mas temas como globalização, ecologia, questões ambientais e responsabilidade social deram à profissão do agrônomo novas dimensões, que trouxeram novas perspectivas muito atraentes. Incluem-se aqui também as evoluções das novas biotecnologias e os avanços nas ciências da informação. Destaca-se o avanço internacional do novo agronegócio brasileiro, que dá ao agrônomo um papel importante no mercado de trabalho. A competitividade abre portas para os profissionais com formação bem mais eclética do que a atual, incluindo uma compreensão dos cenários internacionais e as constantes evoluções tecnológicas.
Biotec pra Galera - Na sua opinião, como estão atualmente as condições do mercado de trabalho para jovens interessados em seguir essa carreira?
Prof. Caldas - O mercado de trabalho, independentemente da profissão, está altamente competitivo. Neste sentido, o agrônomo precisa estar bem preparado para enfrentar os desafios atuais da atividade. Apesar do grande número de profissionais formados, sempre existe um grande espaço para profissionais criativos. O campo de atuação é bem amplo e a agronomia oferece uma formação que permite o agrônomo se engajar em várias atividades que vão desde a produção agrícola, pesquisa, docência e economia agrícola até a atividade de gerar ou conduzir seus próprios negócios. Aconselho aos interessados na profissão de agrônomo que entrem na universidade e busquem todas as oportunidades que o ambiente universitário oferece.
Biotec pra Galera - Como o sr. se envolveu com a biotecnologia?
Prof.Caldas - O meu envolvimento com a biotecnologia iniciou-se há muito tempo, quando eu ainda estava cursando o PhD no Estados Unidos, entre 1967 e 1970. Ao retornar para o Brasil, colaborei na introdução de pesquisas da cultura de tecidos vegetais no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena/USP), com a participação de pesquisadores norte-americanos. Na UnB, iniciei, então, a formação de pesquisadores em enzimologia, que busca produção de enzimas de interesse industrial.
Na década de 1980, fui diretor de Pesquisa e Desenvolvimento de uma empresa brasileira de biotecnologia vegetal, pertencente a um grupo inglês. A partir desta experiência, percebi que a biotecnologia tem um potencial econômico extraordinário no sentido de apoiar a agricultura nacional numa grande vantagem competitiva.
Biotec pra Galera - O que faz o Departamento de Ciências Genômicas e Biotecnologia, da UCB, e o que exatamente o sr. faz?
Prof.Caldas - A Universidade Católica de Brasília (UCB) tem um programa de pesquisa e pós-graduação em Ciências Genômicas e Biotecnologia cujos objetivos básicos são a formação de recursos humanos e o desenvolvimento de produtos e processos relevantes para a saúde humana e para a agropecuária. São kits de diagnóstico, proteínas recombinantes, softwares para data mining (a chamada bioinformática) e avanços do conhecimento fundamental nas áreas da genômica e proteômica. A minha participação está delimitada às atividades de gestão de Pesquisa e Desenvolvimento e aos cursos avançados da pós-graduação e apoio à graduação da UCB, como professor de Bioquímica.
Biotec pra Galera - Quais as pesquisas científicas mais importantes que vocês desenvolveram?
Prof.Caldas - A equipe, composta atualmente de 16 doutores, tem produzido avanços significativos nestes poucos anos em que estamos trabalhando juntos. Na área básica, temos avançado muito na compreensão da estrutura gênica de vários sistemas, principalmente nas redes cooperativas que coordenamos ou que participamos como parceiros de instituições nacionais ou internacionais. Na área de ecologia molecular, temos contribuído muito na compreensão do fluxo gênico (troca genética) entre espécies vegetais das regiões do Cerrado e da Amazônia. Na área de saúde, temos avançado muito na compreensão da expressão gênica de Trichomonas vaginalis. Está em fase avançada de desenvolvimento de um kit de diagnóstico rápido para dengue. A UCB também coordena a rede Centro-Oeste de Bioinformárica (Biofoco).
Biotec pra Galera - Explique para os jovens o que foi a Revolução Verde.
Prof.Caldas - TA revolução verde caracterizou-se pela inserção de avanços tecnológicos na produção agrícola, principalmente pela utilização insumos ditos modernos a exemplo de adubos solúveis, com pronta disponibilização para as plantas, herbicidas, fungicidas, etc. Além da utilização de máquinas agrícolas, como as plantadeiras, os pulverizadores, as colheitadeiras e os novos sistemas de secagem e armazenamento de grãos. A revolução verde foi um contraponto à tese que previa a fome mundial em função da queda na produção de alimentos, devido à exaustão dos recursos naturais e ao crescimento populacional.
Biotec pra Galera - E como o sr. avalia o surgimento da biotecnologia para a agronomia? Pode ser considerada uma nova Revolução Verde?
Prof.Caldas - A biotecnologia tem a missão (e certamente a cumprirá) de mudar os rumos da revolução verde e construir a ever green revolution (eterna revolução verde). As ferramentas da biotecnologia vão construir um novo agronegócio, onde as plantas serão mais eficientes na utilização de nutrientes, o controle biológico vai cada vez mais assumindo um papel de destaque no controle das pragas e doenças. Novos genes serão descobertos para que as plantas "aprendam" a se defender dos ataques de fungos, de bactérias e de insetos.
O ser humano, na produção agrícola, vai gradativamente reduzindo a demanda por recursos naturais e jogando menos defensivos agrícolas no meio ambiente. Na minha visão, é um sonho altamente realizável, dependendo das políticas públicas nacionais e internacionais e da vontade da sociedade de romper com velhos paradigmas e construir um futuro mais duradouro para a humanidade.
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