Quando Carlos Termignoni começou a trabalhar com biotecnologia, em 1983, o termo era tão pouco conhecido que as pessoas nem sabiam bem como rotular as pesquisas na área. Hoje, Termignoni é diretor do Centro de Biotecnologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), um dos mais importantes do país no que diz respeito a projetos de genoma. Formado em veterinária também na UFRGS e pós-graduado em bioquímica e biologia molecular pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), o professor fala para o Biotec pra Galera sobre as pesquisas do centro e o mercado de trabalho.

Biotec pra Galera - Desde quando você trabalha com biotecnologia?

Termignoni - Logo que voltei do doutorado, em 1983. Naquele tempo, muitas coisas não eram rotuladas como biotecnologia. Por exemplo, o primeiro projeto em que me envolvi foi estudar um tipo de enzima para ativar a motilidade (mobilidade) do espermatozóide bovino. Isso é biotecnologia pura, a aplicação é biotecnológica. Desde então, tenho me dedicado sempre a projetos envolvendo enzimas proteolíticas ou inibidores de enzimas proteolíticas que possam ter aplicação.

Biotec pra Galera - tipo de pesquisa o Centro de Biotecnologia faz?

Termignoni - Nós temos, por exemplo, projetos de genoma. O genoma de uma bactéria que causa uma doença em suínos foi liderado por pesquisadores aqui do centro. Esse trabalho envolve a clonagem de microorganismos transgênicos e foi concluído há pouco tempo, no ano passado. Para fazer o estudo - determinar o genoma da bactéria - retira-se o DNA dessa bactéria e o transfere para uma bactéria de laboratório, no caso a Escherichia coli. Outro projeto importante que tem uma parte desenvolvida aqui no centro é o Genolyptus (projeto que visa criar variedades mais resistentes do eucalipto, matéria prima do papel e da celulose, derivados de uma produção na qual o Brasil é líder mundial). A primeira parte foi centralizada aqui; a produção dos clones e uma parte do seqüenciamento do genoma do eucalipto também estão sendo feitas aqui. Estamos procurando genes envolvidos na síntese de lignina para, no futuro, termos um eucalipto modificado que produza menos lignina (substância do eucalipto que não serve para fazer papel). Isso significa produzir um papel usando menos insumos e produzindo menos efluentes danosos. Esse projeto envolve a Embrapa e ainda sete universidades e 12 empresas. A questão é que, quando se chega em um certo ponto da pesquisa, levantam-se novas dúvidas, são feitas novas propostas e avançamos para novas pesquisas.

Biotec pra Galera - Quantas pesquisas do centro envolvem transgênicos?

Termignoni - Cerca de 80% do trabalho realizado no Centro envolvem transgênicos, mas a maior parte como ferramenta. Por exemplo, nós estamos procurando antígenos que possam ser úteis para uma vacina contra o carrapato bovino. Quando se identifica uma proteína, um sistema que pode ser alvo, nós tentamos, para produzir em maior quantidade essa proteína, pescar o gene dela no DNA do carrapato, transferir para uma bactéria e fazer a bactéria produzir essa proteína. Então, essa bactéria é estritamente transgênica, mas é apenas uma ferramenta para o nosso estudo.

Biotec pra Galera - Como está o Brasil em pesquisas com transgênicos?

Termignoni - Está um pouco atrasado em relação a outros países, como os EUA. Principalmente na parte de investimento de empresas, de volume de recursos. Mas, do ponto de vista de qualidade, está bem, há uma competência estabelecida. O problema é que não se têm recursos para poder atacar todas as frentes como acontece por lá. Atualmente, temos um grande investimento na área biomédica, principalmente na busca por desvendar o mecanismo de doenças. Por exemplo, o tripanossoma e seus vetores, e também no caso da malária e outras doenças importantes para a população brasileira. Todas essas pesquisas usam ferramentas produzindo microorganismos transgênicos.

Biotec pra Galera - E como está o mercado de trabalho no país?

Termignoni - O jovem que resolver se dedicar à biotecnologia tem muitas opções. Muito em laboratórios de pesquisa, em universidades, mas também nas próprias empresas, que necessitam cada vez mais usar técnicas sofisticadas. Por exemplo: as técnicas de micropropagação, na agricultura, que, de uma maneira simples, pode-se dizer que é produzir plantinhas em tubos de ensaio. São plantas livres de vírus e que vão se desenvolver mais; isso é um mercado que está se ampliando cada vez mais. Muitas dessas mudas, como as de morango, eram importadas, por exemplo, da Argentina. Agora essa importação diminuiu, e isso graças a uma mão-de-obra especializada. Na parte de fermentações também, pois as técnicas estão cada vez mais sofisticadas. Temos grandes empresas do setor alcooleiro, cervejarias, vinícolas, mas muitos outros produtos de fermentação que são importados deverão começar a ser produzidos no Brasil com tecnologia própria. A biotecnologia é um mercado que vai se abrindo aos poucos, gradativamente, até porque as pesquisas precisam sempre ser refinadas. A questão biológica é muito diferente, como, por exemplo, colocar gasolina num carro: em qualquer lugar do mundo vai funcionar igual. Mas as aplicações biológicas dependem muito de variáveis ambientais. Então, há um grande mercado de trabalho porque nunca deixa de ser necessário refinar essas pesquisas já que são únicas em cada local, de modo que importar tecnologia como caixa preta geralmente não vai funcionar. Então, deveremos ter nossos próprios especialistas.

Biotec pra Galera - Mas como está o mercado para empresas hoje em dia?

Termignoni - Em número de postos de trabalho, o setor público ainda está mais forte. Mas o mercado está crescendo nas empresas. Algumas empresas no Brasil já trabalham com organismos modificados por transferência de genes, mas muitas se dedicam à biotecnologia. Por exemplo: nós temos uma incubadora empresarial aqui no Centro de Biotecnologia, e trabalhamos com uma microempresa de um ex-aluno nosso. Essa empresa produz uma cultura de microorganismos -neste caso, é um organismo que não foi modificado por transgenia - para usar em lagos de tratamento de efluentes, com o objetivo de apressar a decomposição de matéria orgânica. Assim como essa, outras empresas procuram utilizar microorganismos. Há empresas que produzem fungos para uso em controle biológico. Em São Paulo, há várias. No Nordeste, foi criada uma grande unidade para produzir moscas esterilizadas de modo a diminuir a população e controlar esta praga de plantas.

Biotec pra Galera - Como alguém faz para se tornar pesquisador?

Termignoni - Pensando aqui no Centro de Biotecnologia... Temos 13 professores líderes de grupos de pesquisa, totalizando 25 doutores, mais uns 120 alunos de mestrado e de doutorado e mais uns 130 alunos de iniciação científica. Um aluno de iniciação científica é aquele que durante a graduação se engaja em um laboratório, trabalhando intensamente. É um estágio, mas ele tem uma função praticamente de pesquisador, e a gente cobra muito. Para fazer um mestrado ou doutorado no centro, basta procurar um dos líderes de grupos de pesquisa e se oferecer. Ele tem que se propor a se engajar nas pesquisas que o centro faz. São umas 20 vagas por ano, e é bem concorrido. Fazemos uma seleção que basicamente é para ver se a pessoa tem potencial para fazer aquilo. Não é um vestibular. Vai depender da entrevista, de o que o candidato fez ou faz durante a graduação, se ele demonstrou interesse pela área, se participou de congressos, se tem capacidade para o trabalho científico. Não precisa de muita informação prévia sobre os assuntos a serem pesquisados, porque isso a gente pode ensinar, e ensina. O importante é ter perfil de pesquisador, uma curiosidade própria e vontade de satisfazê-la e de abraçar a trabalheira e a dedicação que isto requer. Muitas vezes, se há alguma dúvida, o candidato faz um estágio de alguns meses para ver se se adapta. O nosso compromisso é o de que, quando o pós-graduando é aceito, ele não tem como não dar certo. O centro está permanentemente aberto para receber pessoas inteligentes.

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